Do outro lado do mundo, com os nossos irmãos

O entusiasmo e a expetativa que tínhamos em relação às nossas duas semanas em Timor era muito grande, mesmo assim podemos dizer que a realidade superou o que esperávamos.

Assim que chegámos a Díli – a capital timorense – apanhámos uma biscota (nome do mini-bus local) com destino a Baucau, onde chegámos passadas 5 horas de saltos, buracos e socalcos constantes, uma animação. Entretanto lá fomos tentando falar com os locais, o que se revelou muito difícil visto que poucos falavam português. Chamavam-nos malai, o que viemos a descobrir que significa estrangeiro em tétum, a língua oficial de Timor a par do português.

Quando chegámos àquela cidade, a segunda mais populada do país, já nos esperavam o André e o Fernando, dois portugueses de Macau que, juntamente com outros 3 macaenses (que já não se encontram no país), construíram uma associação de agricultura – naTerra – com preocupações sociais. Assim, o seu objetivo é ensinar e demonstrar que boas práticas agrícolas podem levar a uma melhoraria da qualidade de vida daquelas pessoas, que muitas vezes se encontram subnutridas.

E foi neste mundo, em que “sustentável” é a palavra de ordem, que vivemos durante os 10 dias que estivemos em trabalho de voluntariado. De manhã, acordávamos e comíamos iogurte natural produzido diariamente lá em casa através da fermentação do leite pelo kefir, comíamos fruta muitas vezes apanhada no “nosso” quintal, pão acabado de fazer pelo vizinho da frente, acompanhado por uma compota regional. Só pecávamos com a manteiga uma vez que era importada da Austrália. Os almoços e os jantares eram alternados entre restaurante locais, restaurantes portugueses e refeições caseiras, mas os produtos produzidos localmente continuavam a não faltar. Lá em casa ainda não existia água canalizada e toda a água que consumíamos, mesmo para beber, era pluvial. Até o lixo orgânico que produzíamos era aproveitado para a compostagem que era feita quer através do método tradicional quer através do uso de minhocas (vermocompostagem).

O nosso trabalho integrava-se na produção e manutenção dos espaços agrícolas –  como quem diz, sujar as mãos na terra. Fizemos de tudo: arrancámos ervas daninhas, plantámos plantas, preparámos estrumes naturais, arranjámos caminhos e cursos de água, cuidamos de galinhas e coelhos e das suas “casas”, podámos árvores e regámos. Fartámo-nos de aprender!

Entre os dias de trabalho, também havia lugar ao convívio e à descontração, o que, segundo os nossos compatriotas, é algo muito usual entre os muitos voluntários das várias nacionalidades a operar em Timor. Muitos destes representam as Nações Unidas que estão no país há dez anos e que têm como objetivo trazer a paz e a estabilidade a um país que comemora agora 10 anos de independência. Estabilidade essa que é posta agora em causa com as eleições legislativas que se aproximam, mas que se correrem como as presidenciais, serão mais uma vitória para este povo tão sofredor. As Nações Unidas começam a sair gradualmente do país no final do corrente ano civil.

Assim passaram 10 dias muito diferentes do costume, onde aprendemos coisas que não nos passavam pela cabeça aprender em Timor, a diversidade de experiências deste Gap Year não pára de aumentar…

Mas era tempo de regressar a Díli. Para isso, apanhámos boleia com o Jaco que trabalha na agência para o desenvolvimento agrícola das Nações Unidas, assim sempre fizemos uma viagem bem mais calminha do que a anterior… Na capital, já nos aguardava um projeto igualmente super interessante, o MOVE Timor. Este projeto, com origem na Universidade Católica de Lisboa e já dispersa por diferentes países africanos, trabalha essencialmente com microcrédito (apesar de em Timor ainda se estarem a dar os primeiros passos). Nesse sentido, esta equipa formada por 5 jovens – Mariana, Mário, Francisco, Pedro e Hugo – está a lecionar empreendorismo na universidade pública de Díli e a apoiar diversas empresas e cooperativas. Tudo para que as pessoas comecem a ganhar espírito empreendedor, fortalecendo assim a cidade e o país onde a grande parte dos investimentos ainda vem de fora.

Depois de assistirmos a uma aula desta cadeira, tivemos ainda tempo para explorar a cidade onde nos foi mostrado o mercado de thais (têxteis tradicionais), o mercado da cidade e as principais ruas e edifícios da zona. No final do dia fomos ainda jogar futsal, juntamente com outros portugueses e timorenses, um momento muito agradável pelo seu espírito de diversão conjunta e amigável. Mas perdemos, e por várias vezes, contra a seleção timorense de futsal que se juntou a nós para treinar. No dia seguinte de manhã, fomos fazer snorkeling (mergulho sem o auxílio de botijas de ar) algo que dificilmente iremos esquecer pela diversidade e beleza de corais e peixes que forram e animam o fundo do mar e que tivemos a oportunidade de admirar. Segundo muitos, dos mais ricos do mundo… Depois chegámos a casa onde já se começavam a acender as primeiras brasas para o churrasco organizado para juntar amigos, maioritariamente portugueses. Quem não ficou indiferente a esta festa foram as crianças do bairro, que mal souberam da “churrascada” em casa dos malai, foram logo tomar banho e vestir roupa lavada para que estivessem bonitos para a festa. Todo essa preocupação foi esquecida quando chegou a altura de comer – era ver pratos cheios de carne, garrafas de coca-cola e batatas fritas a desaparecer em segundos, o que nos parece perfeitamente compreensível tendo em conta a pobreza da alimentação de muitas pessoas neste país.

A festa ia seguindo pela noite dentro com direito a entrecosto, chouriço, vinho e mesmo queijo português, uma relíquia para quem já está há tanto tempo longe de casa. No final, fomos à festa de despedida do contingente da G.N.R. que rende a guarda ao próximo que chega no decorrer da próxima semana. Finalmente, e depois de chegarmos a casa e fazermos a mochila, ainda tivemos tempo de dormir meia hora antes de nos levantarmos hoje de madrugada para nos deslocarmos para a Austrália, de onde vos escrevemos.

De Timor, na nossa memória, fica um pequeno país irmão, com pessoas atenciosas, amigas e simpáticas. Mas principalmente a ideia de um país que preserva uma série de valores extremamente puros cujo tempo e a história ainda não levou. Um país muito virgem, sobretudo…

Para finalizar, fica o agradecimento aos “tugas” que nos abraçaram em suas casas com a boa hospitalidade e arte de bem receber que tão bem caracteriza o povo português.

Até logo, colega!

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3 respostas a Do outro lado do mundo, com os nossos irmãos

  1. Mariana Bernardo diz:

    Meu Deus, só de pensar que vocês estão a acabar esse enorme percurso, fico nostálgica :$
    Adorei a crónica meninos, como todas as outras… Lembro-me que no inicio vocês diziam que queriam que os vossos leitores acabassem por viajar convosco e pelo menos comigo conseguiram-o e muito bem
    Beijinho para os dois

  2. maravilhosa a vossa crónica a vossa experiência ,TIMOR um país com muitos recursos para explorar como diz a tiaXICA aproveitem bem o tempo que vos resta beijinhos

  3. MFA diz:

    Meus queridos Lobos Aventureiros,
    “Una crónica muy preciosa” !
    Está no top 5 das minhas preferidas… pelo conteúdo (recheado de conhecimento e novas experiências e contactos) e pela forma (simples mais muito rica).
    Certamente que esta passagem por Timor ficará como um importante marco na vossa vida.
    Estão na recta final… explorem ao limite!
    Bjs
    MFA

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