10 motivos para ajudar

Ao fim de um total de 30h de viagem, alcançámos Pokhara, a segunda cidade mais visitada por turistas no Nepal. A viagem foi desgastante mas ao mesmo tempo “animada”. Tivemos sempre música ambiente “aos altos berros”, andámos aos saltos no banco, apanhámos frio e calor, demos boleia a cabras e galinhas no tejadilho do autocarro, parámos sucessivamente para revistas policiais, passámos fome, bem… mas no final destas 3 semanas podemos afirmar que todo aquele sacrifício valeu a pena!

Depois de um merecido banho, conhecemos a carregalense Marília Dias (Lya, como sempre a tratámos) que logo nos aprofundou a índole do projecto Everest Children Home (lar onde iríamos desenvolver o trabalho de voluntariado) e suas necessidades. A Lya foi o nosso ponto de contacto com esta instituição, com a qual já mantem fortes laços afetivos há alguns anos. Com a Lya fomos fazer uma primeira visita à cidade, onde nos apercebemos da forte aposta no turismo – bares, restaurantes, lojas de montanhismo (o trekking é a maior atracão da região) alinhavam-se em ruas limpas e estreitas que desaguavam no lago Fewa onde se via o reflexo das várias montanhas dos Himalaias – uma paisagem impressionante… De seguida fomos ao lar para conhecer e dar uma volta com as crianças que logo nos acolheram como tios – nome pelo qual nos  viriam a tratar. Podemos dizer que fomos calorosamente recebidos com abraços e beijinhos, ternura e amor e perguntas que não esperávamos ouvir, mas que agora entendemos: “Tens pais? Mãe? Pai? Quantos irmãos? Como se chamam? Avós?”. Tudo aquilo era revelador de um défice de carinho que nós tentámos cobrir ao longo do tempo.

Os nossos dias foram rotineiros mas não chatos: saíamos do hotel às 8.15h, chegávamos ao lar e tomávamos o pequeno almoço, depois ou brincávamos com os miúdos ou os ajudávamos a estudar. Muitas vezes um de nós também ajudava na preparação do “pequeno almoço almoçarado” que era servido às 9.30h e que consistia em arroz e dhal (não nos perguntem o que é) com vegetais variados cortados por nós. As crianças encarregavam-se de fazer o arroz, sempre por iniciativa própria. Depois de os ajudarmos a vestir, partíamos os doze para a escola. Voltávamos a casa e ajudávamos a Jyoti (uma pessoa inacreditavelmente boa) em tudo que ela precisasse, tanto na manutenção da casa como na lida doméstica. Fizemos de tudo: cortámos lenha e podámos uma árvore, construímos um baloiço e uma escada, arranjámos portas e o galinheiro, esfregámos chão, transportávamos água (uma vez que não existia água canalizada) e mercadorias, etc etc etc. Depois almoçávamos e por volta das 15.00h íamos buscar as crianças à escola… Depois eles lanchavam e de seguida brincávamos com eles de variadíssimas formas, ou então víamos um filme – o que eles adoravam uma vez que não tinham televisão. Passadas umas horas, regressávamos ao hotel onde recarregávamos energias para o dia seguinte. Por vezes íamos dar uma voltas pela cidade para deslumbrar toda aquela natureza envolvente.

Toda esta rotina foi quebrada por 5 dias excecionais – o Presidente da Fundação Lapa do Lobo (FLL), Carlos Torres, veio ter connosco ao Nepal. Depois de 1 dia completo de viagem, de avião em avião, o Dr. Carlos Torres chegou a Kathmandu onde já o esperávamos ansiosamente. A partir deste momento deixamos de ser dois e passámos a ser três viajantes…  Fomos para o hotel onde ficámos confortavelmente instalados e onde finalmente dormimos sem redes mosquiteiras (que bem que descansámos naquelas noites). Em Kathmandu visitámos o templo dos macacos e uma Stupa (templo budista) de onde se tinha uma vista panorâmica de uma cidade pobre e confusa mas rodeadas por montanhas altas e lindas. Visitámos ainda o Patan, património mundial da Unesco, onde almoçámos e permanecemos algumas horas a desfrutar o local. Visitámos ainda o palácio real onde, durante o período (recente) monárquico, vivia o rei e onde há bem pouco tempo, 2001, teve lugar o massacre real, no qual o príncipe herdeiro matou as mais importantes figuras reais. De resto, foram as voltas pela aquela cidade degradada, a pé e de carro, os almoços e jantares e todo o convívio em volta disso tudo, onde se alinhavaram projetos futuros e novas ideias, mas onde também se falou de Portugal e do mundo, de viagens e de histórias pessoais… Depois voltámos para Pokhara, ainda com o Dr. Carlos Torres, e aprestámos-lhe a cidade que o próprio disse ser muito “mais genuína”. No final do dia jantámos num restaurante à beira lago. Nos dias seguintes andámos a aproveitar a natureza e alugámos uma scooter para visitar uma cascata, uma gruta, alguns miradouros e a Stupa… fizemos inclusive trekking o que nos levou ao cimo de uma montanha de onde se avistavam os pontos mais altos da região cobertos de neve e onde o silêncio convidava a repousar depois de uma cansativa subida. Durante o caminho fomos vendo aldeias, visitando casas tradicionais, contactando com habitantes locais, identificando árvores de fruto e demarcando trilhos de terra e pedras – uma incrível experiência.

Como não poderia deixar de ser, fomos mostrar o orfanato ao Dr. Carlos Torres para que ficasse a saber o que fazíamos nós diariamente – mas esta visita acabou por ser tudo menos institucional… Quando chegámos o Dr. Carlos Torres foi recebido com cartazes e sorrisos, beijinhos e abraços e inclusive um colar de pétalas de reconhecimento. Fizemos uma visita ao lar onde o Dr. Carlos Torres se foi apercebendo de algumas condições menos próprias daquele lar. De seguida, mostrámos o nosso trabalho e explicámos o que costumávamos fazer diariamente. Antes de um almoço com uma ementa especial, ainda houve espaço para brincadeiras e cânticos com os miúdos que “não o largavam”. No final, o Dr. Carlos Torres anunciou que a FLL ia doar dinheiro e oferecer uma bomba de água para que naquela casa começasse a haver autoclismo e água canalizada e quente, uma vez que nada disto existia. O dinheiro ficou entregue à Lya que disse que este vai ser essencial para fazer algumas reparações, comprar comida e pagar as propinas da escola privada, que este ano subiram bastante.

Muitas das vezes que íamos levar os miúdos à escola voltávamos para trás com eles. A educação no Nepal é precária, e pior ainda se for na escola pública. Veja-se que durante a nossa estadia foram quase tantas as vezes que o miúdos ficaram em casa como aquelas em que foram para a escola, já que aparecia sempre uma greve ou um feriado. Na privada isso acontece com menos frequência, a educação é mais estável e as aulas são lecionadas em inglês, o que proporciona vantagens  para o futuro. Mas, infelizmente, só duas das dez crianças é que tiveram oportunidade de ir para a privada e, para agravar a situação, este ano os donativos têm sido cada vez menores e houve uma subida brutal de preços.

Algo que complicou bastante a situação do orfanato foi o facto de o marido da Jyoti, à cerca de 5 meses atrás, ter fugido de lá com todo o dinheiro, com galinhas e até mesmo com algumas crianças, não se sabe bem porquê nem para onde. E como era ele que tratava da parte administrativa, tudo está ainda em nome do próprio, tanto no registo como no banco. Atualmente, sabe-se que ele continua a enviar e-mails aos antigos voluntários a pedir ajuda para o orfanato, dinheiro este que nunca chega ao lar. É desumano, mas acontece…

É também neste contexto que o trabalho da Lya tem sido vital para o lar, descobrindo os locais a que tem de se dirigir, as pessoas com que tem de falar – tudo para que se possa colocar o orfanato em nome da Jyoti, o que tem se demonstrado um desafio mas que está a ser lentamente conseguido.

Durante estes dias temos recebido alguns comentários de pessoas a revelar algum interesse em querer ajudar, para isso podem consultar o blog da Lya, onde se encontram todas as coordenadas para o efeito: http://www.viagemincognita.blogspot.com/2012/03/como-ajudar-o-orfanato.html . O dinheiro irá certamente para um projeto real, com necessidades reais e não ficará perdido em mãos alheias nem será usado para outros propósitos.

Chega o último dia no lar para nós, o dia da despedida, passado entre muitos abraços e beijinhos, fotografias e desenhos. No final, fomos presenteados com um lenço como sinal de gratidão que agora iremos guardar com todo o cuidado. Temos a certeza que estas três semanas nos irão sempre acompanhar pela vida fora, quer pelo seu enriquecimento, quer em termos humanos e sentimentais pois nunca mais vamos esquecer aqueles fantásticos miúdos e aquela mãe…

Agora cá estamos nós em Macau, ex-colónia portuguesa, a Las Vegas do oriente, rodeados por milhares e milhares de chineses apressados.

Por fim, deixamos um pequeno depoimento que pedimos ao Dr. Carlos Torres para produzir, já que parte desta viagem foi feita com ele:

Caros Gonçalo e Tiago,

Confirmo que os meus dias convosco em Katmandu e Pokhara foram de facto fantásticos. Vocês são óptima companhia e não param de me surpreender:

são interessados, cultos, divertidos, generosos, muito bem educados, solidários – e têm apenas 18 anos! Parabéns!

Naturalmente que em Katmandu a nossa estadia foi sobretudo turística, não se tratando efectivamente de um destino deslumbrante. Já Pokhara é totalmente diferente, quer no que diz respeito ao enquadramento natural, quer no que diz respeito ao enquadramento humano.

Guardarei para sempre na minha memória o dia passado no orfanato. E guardarei sobretudo a imensa ternura que todos aqueles miúdos sentiam por vocês os dois e ainda a sua tão notória e grande carência afectiva. Mas vim contente: apesar de tudo, pareceram-me crianças felizes – custa a entender, mas é mesmo assim. Os seus padrões não são necessariamente os nossos e apesar de tudo eles vão recebendo algum carinho da “mãe” Jyoti, da Lya e dos voluntários que por lá vão passando. E têm as necessidades básicas asseguradas, provavelmente mais do que a maioria das crianças da sua idade no Nepal. São causas destas que apetece ajudar e que vale a pena apoiar.

Deixo aqui também uma palavra de grande apreço pelo trabalho (e pela cruzada) da Marília.

Obrigado Gonçalo e Tiago: vocês proporcionaram-me uma jornada inesquecível!

E… parabéns! Vocês estão a dar um conteúdo extraordinário a toda esta imparável aventura do GAP-YEAR da Fundação Lapa do Lobo!

Até à vista, companheiros!

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8 respostas a 10 motivos para ajudar

  1. MFA diz:

    Queridos lobos aventureiros,
    Esta vossa jornada é de um humanismo, generosidade e felicidade (no dar e receber) ímpar.
    Em cada palavra e em cada imagem está espelhada a ternura e a aprendizagem.
    Sempre expectante (e atenta) aguardo as novas geografias e antropologias desta vossa inesquecível vivência!
    Um beijo carinhoso a ambos,
    MFA

  2. Carolina Nikaitow diz:

    os sorrisos das crianças dizem tudo, sao os maiores voces (:

  3. Isabel dos Santos diz:

    Crónica sublime, Parabéns!
    Esta vossa viagem a Pokhara, mais propriamente ao Lar onde a minha querida colega de turma(já lá vão uns anos) e amiga Marília Dias faz voluntariado, agitou um pouco o meu coração…dentro de pouco tempo vou ajudar, através do blog da Lya, embora eu gostasse de ajudar, também com outro tipo de bens: material escolar,roupa,brinquedos.
    Gonçalo e Tiago, como seres humanos (apenas 18 anos), são um excelente exemplo de trabalho, amor, coragem, sabedoria, perseverança e humildade. Iluminaram, irradiaram paz, deram amor e generosidade a estas crianças. Um extraordinário modelo de força moral e otimismo.
    Mas o fato é que, a vossa missão continua, não vão faltar batalhas nem desafios, nesta vossa viagem!!! Um percurso de início de vida, sem dúvida enaltecedor, rico de aprendizagem e conhecimentos! Regozijo a Fundação Lapa do Lobo.
    Claro que esta é a minha opinião. Saudações.

  4. Cristina Saraiva diz:

    Pois é, quase que fico sem palavras com toda esta descrição maravilhosa do vosso trabalho voluntário, já quando tinha visto as fotos, fiquei bastante emocionada mas muito orgulhosa de ti Gonçalo (que já não és o meu menino mais velho, mas sim o meu rapaz), embora neste momento já não me surpreendes com a pessoa incrível que és, não menosprezando o Tiago, claro, de quem também gosto muito, enfim foi sem dúvida um trabalho com um valor incalculável, do qual não me canso de dizer, EU ME ORGULHO IMENSO, muitos parabéns também à Marília, pois também é fabuloso todo o seu empenho, o carinho e não só que se vê bem, que tem por aquelas crianças lindas. Estão todos de parabéns, e estou convencida que Dr. Carlos Torres jamais se irá arrepender de ter apostado em vocês os dois, (ele próprio já o frisou). Vou terminar para não ser maçadora, pois teria muito mais que escrever, mas vou apenas dizer que estou encantada com o vosso trabalho e cada vez mais orgulhosa, continuem com essa força e alegria, beijos aos dois com muito amor e carinho.

  5. Bila Fonseca diz:

    Só com um espirito de voluntário é possivel fazer o que têm feito. Acredito que essas crianças dificilmente se esqueçam de quem tanto as acarinhou. Obrigada por serem quem são, obrigada por serem Portugueses.

  6. Lya diz:

    Excelente crónica e reportagem. Excelentes prestações por onde têm passado. Obrigada por todo o carinho e apoio. Abraços meus e muitoooooooos beijos e saudades da pequenada. Continuação de boas viagens, aventuras emocionantes e aprendizagens enriquecedoras.

  7. Fernanda Rodrigues diz:

    Comovente! …
    Parabens e obrigado por este gesto tao humano.
    Pessoas como voces fazem o mundo mais maravilhoso !

  8. A vossa crónica e fantástica como os meninos conseguiram com o vosso carinho dar tanta felicidade , a quem tem tão pouco .A MARILIA está a fazer um trabalho meritório. Apreciei a descrição do DR CARLOS TORRES,.não imaginam a vossa cara e sorriso de felicidade como se apresentam ,são o nosso orgulho ao meu querido neto e ao Tiago um grande beijo de muito amor.

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