Duas semanas como professores e indianos

Foi em Kanda, uma aldeia isolada do mundo e inscrita no meio das montanhas de onde já se avistavam os Himalaias, que passámos os melhores momentos de toda a viagem.
Saímos de Deli por volta das 21h e só chegámos ao destino final por volta das 17.30h do dia seguinte. Os buracos nas estradas não deixavam adormecer, o barulho do rádio também não convidava ao descanso, tanto que depois de chegarmos e de sermos apresentados à família, fomos descansar para o nosso quarto. Era um género de barracão remodelado, onde o colchão era a própria madeira da cama. O dia seguinte, domingo, foi passado a brincar com os miúdos da casa, o Gautam e o Chivam.
Segunda-feira foi dia de começarmos a nossa missão e a nossa rotina. Por volta das 8.30h acordávamos, arranjávamo-nos e, “às vezes”, íamos tomar banho. Para isso, aquecíamos a água na fogueira, colocávamos num balde, misturávamos água fria até ficar morna e, com a ajuda de um púcaro, íamos molhado o corpo e tirando o sabão. Depois tomávamos o pequeno-almoço – o incontornável arroz com creme de iogurte e dahl (um molho de legumes)- e, posto isto, iniciávamos a nossa maratona matinal pela colina acima até à escola. Às 9.30h, e sem atrasos, tocava o sino e os alunos começavam a alinhar-se no átrio, prontos para começar os cânticos religiosos que lhes davam energia e boa sorte para o resto do dia. De seguida, e em fila, cada turma ia para a sua sala para se dar início às aulas que duravam até às 15h, apenas com um intervalo de 45 minutos, onde aproveitávamos para comer e brincar com os miúdos ou a jogar à macaca, ou a jogar cricket. Durante estas duas semanas lecionámos ciências, físico-química, matemática, inglês, geografia e educação cívica, fizemos testes e tirámos dúvidas. Depois voltávamos para casa, almoçávamos o inexorável chapati acompanhado, para não variar, de legumes. Todas as refeições eram feitas no chão e sem uso de qualquer talher ou guardanapo e, para ajudar com o picante, era nos servido um chá. Acabada a refeição, era tempo de ir conviver para o centro da comunidade, ou então acompanhar os miúdos a levar as cabras a passear e, enquanto elas paravam para comer, jogar de novo cricket. Quando escurecia voltávamos para casa e se não faltasse a luz (o que acontecia praticamente todos os dias durante uma hora) víamos televisão e, depois de jantar, lavavam-se os dentes e cama.[vimeo http://vimeo.com/37616636 w=681&h=383]
Foi uma experiência fantástica. Apesar de sermos nós os professores, aprendemos bastante. As crianças, e apesar de sermos novos e apenas voluntários, sempre nos trataram com um respeito fora do normal. Não entravam na sala se nós não autorizássemos, levantavam-se com a nossa chegada e ao responder, nunca nos interpelavam sem ser por Sr., mostravam interesse, lutavam para ver quem respondia ou lia primeiro e chateavam-se se alguma vez lhes pedíssemos desculpa ou agradecêssemos algo. No final de cada aula cantavam uma cantiga de agradecimento. A escola não tinha mesas nem cadeiras, os alunos sentavam-se no chão, e algumas das salas eram os próprios corredores. Ao falar com um dos professores da escola apercebemo-nos que aquele espaço era alugado, e que havia um projecto para uma escola maior e com melhores condições, mas infelizmente falta o dinheiro. O estado não contribui em nada, e são os próprios alunos que, consoante as possibilidades, pagam os ordenados aos professores, vejam!
Aos sábados também havia escola, mas era um dia mais ligeiro. Desenhava-se, faziam-se jogos didáticos, e haviam dois tempos de intervalo. Era um dia para desanuviar.
Ajudar, desta forma estes jovens empenhados, foi sensacional e é algo que não conseguimos descrever. Sentimo-nos úteis e amados. Quando estávamos a fazer uma entrevista a um dos miúdos da escola e lhe perguntámos se gostaria de dizer algo para todas as crianças de Portugal, ouvimos uma miúda a ajuda-lo, a medo, dizendo – “Os meninos de Portugal têm muita sorte em vos ter a ensiná-los, porque nós só vos tivemos por duas semanas”- isto é uma daquelas coisas que dificilmente vamos esquecer…

Em conclusão, esta foi uma das melhores coisas que podíamos ter feito para absorver o máximo possível da cultura indiana. Estar a viver com uma família que nos adotou por duas semanas permitiu perceber como se vive fora da cidade e da confusão, sem o negócio do turismo ou ajudas do estado. Permitiu-nos perceber verdadeiramente a essência da Índia, que nós tanto adorámos viver! Agora que já estamos no Nepal, olhamos para a Índia como um país onde passámos um grande e intenso mês de aprendizagem. A Índia é tudo: picante, quente, confusa, religiosa, dinâmica, poluída, diversificada, simpática, linda, barata, chocante, segura, grande, densa, saborosa, pobre, rica, atrasada, emergente e, mais do que tudo, surpreendente. Sem dúvida que a Índia é o real país dos contrastes!

Kall melenge hum, ok dost!

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20 respostas a Duas semanas como professores e indianos

  1. Manuela Marques diz:

    Não encontro palavras para comentar a vossa belíssima crónica. Percebe-se que sentiram o fascínio da Índia.
    Transmitiram conhecimento àquelas crianças mas penso que foi imenso o que aprenderam com elas. Esta vossa viagem é uma verdadeira terapia de choque que vos ajuda a crescer. Mais tarde, durante a vossa vida, vão perceber a marca que estas vivências vos deixou.
    Tudo de bom e muitos beijinhos.
    Manuela

    • fllgapyear diz:

      Obrigado por todos esses elogios.
      Esta viagem está-nos a dar uma grande bagagem de experiências que serão essenciais para tomar boas decisões no futuro, concordamos plenamente.

      Beijinhos Manuela

  2. Jorge Figueiredo diz:

    Boas rapazes
    Quando a riqueza da escrita é suficientemente elucidativa pela sua lucidez, intensidade e realismo conseguimos aborver um pouco do muito que a vossa experiência de voluntariado vos permitiu viver de forma intensa, direi mesmo inebriante.
    Admitindo que esta vossa experiência constitui uma subida íngreme de uma montanha em busca de vivencias e conhecimentos distintos e inovadores, esta experiência de voluntariado será certamente recordada como o alcance de um dos primeiros cumes.
    Um abraço de amizade.
    Continuem a engrandecer-se e a enriquecermos com as vossas aventuras !!!

    • fllgapyear diz:

      É verdade. Sentimos que, ao fazer voluntariado naquela escola, dobrámos mais um “cume” nesta nossa longa viagem. Mas subirmos estas montanhas com a vossa companhia, torna este percurso ainda mais brilhante.

      Um grande abraço e obrigado

  3. Parabéns a crónica é muito ilucidativa,,por vezes nós lamentamos , por coisas tão insignificantes, comparando com o que viveram nestes dias ,concerteza que numca se vão esquecer dessa aventura ,estou muito orgulhosa (esta vó babada), continuaem com essa força e boa diposição beijinhos para os meninos (é para voçês)

  4. Gena Nascimento diz:

    Adorei ler a crónica!
    Emocionei-me a ler, o que já tinha imaginado ao ver as fotos! Espero sinceramente que esses meninos sejam felizes com o pouco que têm, e que estas crónicas (vossas e da Marília Dias) sirvam para amolecer os corações de todos os que possam ajudar de alguma maneira, a dar melhores condições de vida a estes meninos, e a estes adultos, que se devem sentir impotentes por tudo o que lhes é impossível fazer!
    Continuem meninos, nós por cá estamos muito orgulhosos de vocês
    Beijinhos grandes

    • fllgapyear diz:

      Obrigado pelo comentário, Gena. Mas devemos dizer que, na verdade, estas crianças não se sentem impotentes quanto ao seu “destino”. Elas são felizes, muito felizes até. Elas sempre viveram assim, por isso não sentem falta do que não conhecem.

      O prazer é todo nosso, beijinhos

  5. Isabel Azevedo diz:

    Tudo aquilo que se possa imaginar é pouco…
    Foram duas semanas extraordinárias e muito ricas, quer para vocês, quer com certeza para aqueles jovens.
    A crónica e as fotografias aproxima-nos de vocês e fez-nos sentir mais próximos daquele povo que vos acolheu.
    Continuem assim… a orgulhar-nos!

  6. MFA diz:

    Etnografia, que tanto comentei com vocês… É isto que viveram (que nos relatam, que nos dão a conhecer)!
    É impossível ficar-se indiferente! É emocionante!
    E é um enorme orgulho…
    Saudades!

    • fllgapyear diz:

      É verdade, “Tia Francisca”, etnografia…
      O orgulho é todo nosso, afinal temo-vos a todos como nosso companheiros.

      As saudades são recíprocas, não tarda nada estaremos aí a dormir no teu “hotel” de novo.
      Beijinhos

  7. JPD diz:

    Mais uma crónica que nos leva além da imaginação.
    Muito boa a vossa descrição de outra cultura (milenar), nem melhor, nem pior – diferente.
    Boas viagens com os olhos e a mente sempre bem abertos.
    Grande abraço e porque não , grande orgulho em vocês.

    • fllgapyear diz:

      Exatamente Paulo- “nem melhor, nem pior – diferente”! A Índia é fascinante à sua própria maneira, depois de interiorizarmos isso, “não queremos outra coisa”…

      Sempre de olhos abertos, um abraço

  8. Pedro Marmelo (de Goa!) diz:

    Muito interessante e certamente muito enriquecedora essa vossa viagem e as experiências que vão fazendo pelo caminho. Confesso que fico com um pouco de inveja de não ter tido oportunidade de fazer algo de semelhante quando tinha a vossa idade. Aproveitem bem e “enriqueçam” com os contatos que vão fazendo com os diferentes povos e culturas. Um abraço e boa continuação.

    • fllgapyear diz:

      Caro Pedro, como correu o resto da viagem?
      Por cada dia que passa, sentimos que vamos olhando as coisas que nos rodeiam de forma diferente, é sensacional sentir isso!

      Um grande abraço

  9. Alexandre Sousa diz:

    Certamente uma viagem bem diferente da “1ª volta”, mas penso que nem por isso menos interessante e enriquecedora.
    Votos de que a vida vos continue a sorrir, amiguito Gonçalo e “bombeirito” Tiago.
    Abraços.

    Alexandre Sousa

    • fllgapyear diz:

      Completamente diferente, tens toda a razão… Se a primeira parte foi boa então esta é perfeita, estamos a adorar aprender com este “outro mundo” asiático.

      Um grande abraço

  10. Carlos Torres diz:

    Parabéns (mais uma vez)! Fantástica crónica, fantástica reportagem fotográfica e… fantástica experiência!
    Sinto-me cada vez mais emocionado a seguir-vos…
    Até breve (no Nepal)!
    Carlos Torres (Fundação Lapa do Lobo)

    • fllgapyear diz:

      Obrigado, é sempre bom saber que continuamos “a cumprir objetivos”! Sem dúvida, uma fantástica experiência…
      Não imagina o quanto ansiamos a sua chegada, vai ser emocionante poder rever toda esta evolução do projeto que começou à frente do mapa mundi na Lapa do Lobo.

      Muito obrigado pela oportunidade e até breve!

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