Em Goa, sentimo-nos em casa…

Chegar a esta cidade foi, para nós, uma sensação inexplicável de patriotismo. Foi como se tivéssemos a chegar a um Portugal subdesenvolvido e exótico. Fomos para Goa de comboio e em primeira classe, um luxo! Nem papel higiénico havia. Habitualmente, na Índia, as casas de banho resumem-se a um buraco no chão e a uma mangueira e/ou um pote de água, onde é suposto lavar a mão depois de limpar o dito cujo com a própria. A regra diz que a limpeza deve ser feita com a mão esquerda, uma vez que é com a direita que se cumprimentam as pessoas (mas os hotéis, nesse campo, são mais ocidentais).

A viagem para o hotel foi muito mais agradável e prometedora – um clima quente e vermelho, com um vegetação densa de palmeiras e árvores antigas. Até o próprio hotel era espetacular, parece que tudo indicava que aqueles dias iam ser perfeitos, e foram!

O primeiro dia foi passado na praia (vá, nós sabemos que não é isso que é suposto fazer, mas não resistimos), a água estava tão quente que nem deu para refrescar. Agora vejam: parasailing (um paraquedas puxado por um barco), uma pina colada, um bacardi limão, uns camarões e uns petiscos de galinha numa esplanada à beira-mar seguida por umas espreguiçadeiras, custou tudo 7€ cada. (Algo que no Algarve rondaria os 60€, ou mais!) Se isto não é de perder a cabeça…

[vimeo http://vimeo.com/36020341 w=681&h=383]

Mas Goa não se resume só a praia… Apesar de ter sido portuguesa, Goa é agora muito indiana, de tal forma que a “confusão” é a mesma. Para sentirmos mais um pouco esta cultura fomos “à feira”, como quem diz fomos a um mercado ao ar livre. Neste mercado, fomos novamente enganados – achamos que comprámos seda sintética em vez da verdadeira, mas pronto, nós já nos vamos habituando… Novamente uma coisa imensa, tão grande que dava bem para lá passar um dia inteiro. Especiarias, tecidos, bijutaria, roupas tradicionais, restaurantes, música, etc, etc, etc. Tudo tentadoramente barato.

Mas vamos ao que interessa: Goa e Portugal! Este foi o assunto que nos trouxe a Goa e tentámos explorá-lo ao máximo. Nunca falámos com ninguém sem lhes perguntar se sabia falar português, mas ao contrário do que nós pensávamos, quase ninguém o fala ou compreende. Nesta pesquisa, a primeira paragem foi o forte, a prisão e a igreja de Aguada. Os três construídos em alturas diferentes, mas todos construídos por portugueses. Bonitos, devemos acrescentar. Ao longo dos outros dias fomos vendo outros monumentos mandados construir por Portugal, que constituem a esmagadora maioria dos existentes na cidade. Em “Old Goa”, antigo centro da cidade, é possível ver toda esta influência nas inúmeras igrejas existentes, apesar deste não ter sido sempre o seio da colónia. No séc. XIX, a peste negra invadiu este local, provocando milhares de mortos, o que fez com que os habitantes fugissem e abandonassem as suas casas, ficando essa zona em ruínas, sobrevivendo apenas as igrejas. E foram essas que fomos visitar, todas elas com características muito particulares: na basílica de Bom Jesus está sepultado São Francisco Xavier, na Sé Catedral existe um sino conhecido como o “sino de ouro”, a igreja de São Francisco de Assis conserva no altar 3 inscrições portuguesas, a capela da Nossa Sra. Do Monte tem a melhor paisagem de Goa e, por fim, as ruínas de São Agostinho foram construídas e destruídas pelos próprios portugueses, por ser parte de uma estratégia para melhorar as relações com Hindus.

O taxista de pais portugueses que nos acompanhou na visita a Old Goa (vista da capela da Nossa Senhora do Monte)

O taxista, filho de pais portugueses, que nos acompanhou na visita a Old Goa (vista da capela da Nossa Senhora do Monte)

Mas nós não desistíamos! Só queríamos sair de Goa depois de falar português com um goense. Disseram-nos que na zona sul de Goa ainda persistiam algumas pessoas a falar a língua lusitana. Então, depois de 3 autocarros e 40km, lá chegámos ao local. Fomos perguntando pela rua se alguém conhecia alguma pessoa que pudesse falar connosco. Felizmente fomos bem sucedidos e acabámos por fazer uma pequena entrevista, que foi gravada e será disponibilizada brevemente. Desde já podemos adiantar que foi um grande momento de aprendizagem. Aquele Sr. de 73 anos, cujos olhos já tinham visto muito, ao perguntarmos se se sentia mais português ou indiano, respondeu emocionado português, e isso diz-nos muito!

Durante estes quatro dias tivemos a oportunidade de falar com outras pessoas que ainda se lembram da Goa portuguesa. Todas essas, sem exceção, demonstraram uma enorme saudade “daqueles” tempos, quando as leis eram justas, o desenvolvimento muito, a generosidade e honestidade bastante. Todas elas recuperam a memória de um povo que vivia com qualidade de vida. O sr. Joaquim, que encontrámos a trabalhar numa esplanada contou-nos a história dum porco vendido a um português e a um Indiano, algo que um escritor chamaria metafórico… Ora vejam.

[vimeo http://vimeo.com/36015374 w=681&h=383]

Para concluir, achamos que tudo isto deve ser um orgulho para cada português, porque apesar da nossa situação atual ser complicada, não há que desistir, há sim que lutar tal como os nossos antepassados fizeram. Portugal já foi dono de metade do mundo e toda a gente nos admira por isso, acreditem companheiros… Portanto, como sempre fizemos, temos de voltar acordar e recuperar forças!

Até à vista, companheiros!

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8 respostas a Em Goa, sentimo-nos em casa…

  1. Jorge Figueiredo diz:

    Boas meus caros viajantes
    Quer-me parecer que a crónica nos remete para o gostoso “dolce fare niente”. Bom hotel. praia espectacular com água quente, bebidas refrescantes a condizer, parasailing à maneira (as vozes um pouco trémulas deu-nos a entender que não estariam completamente à vontade), comida à fartasana e, para finalizar o melhor da jornada: preços da troika!!!
    Com a vasta experiência que vão adquirindo em feiras, mercados e formas de “vender gato por lebre”, palpita-me que no vosso regresso definitivo alguém vos vai propor uma “vaquinha” num negócio ambulante. eheheheheheheh!!!
    Para sorte vossa, gostei de saber da ocidentalização dos wc dos hotéis (dado que era conhecedor do motivo porque é de extrema má educação sobrepor a mão esquerda da direita, aquando do ritual do cumprimento. Por motivos mais do que óbvios).
    Adorei ler a reflexão histórica, ainda que me pareça que a língua e parte da cultura portuguesa (com honrosas exceções), foi remetida para as calendas, no entanto permanecem alguns vestígios, que por sinal nos podem dar algumas pistas para enfrentarmos os tempos menos fáceis que vivemos.
    Não resisto a transcrever parte do vosso escrito que nos deveria servir de âncora de otimismo para utilizar no dia a dia: “Portugal já foi dono de metade do mundo e toda a gente nos admira por isso(…)”
    Jorge Figueiredo

    • fllgapyear diz:

      A expressão “dolce fare niente”, sem dúvida, que descreve bastante bem aquele dia de praia, em que mais de uma hora foi passada na espreguiçadeira a dormir.
      Sim, Portugal deixou um grande rasto pela Índia e pelo mundo, porque não pegar nisso para nos inspirarmos?
      Um abraço e um muito obrigado

  2. Adelaide Dantas diz:

    Aqui estou eu outra vez…Adorei mais uma vez a vossa crónica, até as paisagens parecem nossas!!…lembrei-me de repente, que tenho um tio, irmão da minha mãe, fez este mês 80 anos, (está otimo e que eu adoro) que cumpriu o serviço militar aí em Goa, penso eu, imaginem só…como vêm não foi assim há tanto tempo!!!…
    Um grande beijinho para vocês e continuação de uma magnífica viagem.

  3. Maria da Conceição Soares diz:

    Tiago e Gonçalo.
    adorei ler a vossa crónica de viagem! Percebo perfeitamente o vosso “sentir português”. E é este misto de saudade, patriotismo e aprendizagem que vos vai ajudar a “acarinhar” ainda mais as vossas expectativas e formar os grandes homens que (tenho a certeza) serão um dia!
    Continuação de uma excelente volta ao mundo e à vida!
    Conceição Soares

  4. Pedro diz:

    Deviam por uma legenda do que o senhor diz, é que não se entende metade😦

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