Na Índia nada é impossível

Quando chegámos a este país sabíamos de antemão que íamos encontrar um país diferente, mas nada como isto. Para aqui tem de se vir preparado, tem de se “ter algum calo” para ver e aceitar variadíssimas situações que vão desde comer de um prato mal lavado e servido com a mão, a atravessar a rua (o que se pode transformar num desafio) ou a ver pessoas esqueléticas a morrer de fome e a pedir esmola. Ler o que se encontra pela internet não é o suficiente para se compreender o nível de vida que eles levam.

Vimos muita coisa nestes dias, e das melhores decisões que tomámos foi optar por passar pouco tempo no centro da cidade, e mais tempo na periferia, conselho dado por um guia turístico privado que nos encontrou na sua “caçada diária de turistas”,  aos quais oferecia uma visita guiada pela cidade, por uns insignificantes 9€/dia, tendo nós visitado então um bairro de pescadores, num local que foi anteriormente uma lixeira, visitámos uma outra praia, uma zona de lazer familiar, e por fim um dos guetos mais pobres da cidade, em que a principal ocupação dos seus residentes, além do pequeno comércio que tentam fazer pela rua, é a reciclagem. Muitas pessoas enviam para lá diariamente toneladas de cartão, latas de alumínio e plástico, que é cortado, compactado e vendido para a China, mas muitos deles nem sequer recebem por isto. Este foi dos “passeios” mais difíceis, mas também dos mais esclarecedores relativamente à vida destas pessoas. A verdade é que nós sabemos que existe muita pobreza e muita miséria por aqui, mas a realidade é que nós, “estrangeiros” encaramos isto de uma forma muito mais drástica do que eles próprios. As pessoas que vivem nesta situação, não sentem tanto esta tristeza porque sentem que este é o seu karma, que nada podem fazer e, por isto,  aprendem a construir e a viver tudo como um modo de vida. E efetivavente, graças ao sistema de castas neste país, quem nasce pobre morre pobre…

Mumbai, uma cidade com cerca de 16 milhões de habitantes, torna-se um caos quando se fala de andar na estrada, aí uma “simples” viagem de táxi torna-se uma temível aventura pois na estrada, definitivamente, não há regras. Para se conduzir, as únicas capacidades necessárias são a velocidade de reação e a loucura, o resto vem com a sorte, e não estamos a exagerar. Enquanto andámos de táxi notámos que lá se ultrapassava pela esquerda e pela direita, andava-se em contra mão “por ser mais rápido”, ou conduzia-se descalço e com a perna cruzada. Houve uma vez inclusive, que íamos no táxi e de repente o trânsito pára e o nosso taxista continuou para aproveitar para ultrapassar mais alguns carros, só depois disso começou a travar. Resultado, foi por um triz que não mandou uma mota ao chão, quando finalmente consegue parar o veículo descontrolado, vira-se para trás e desata às gargalhadas!
Outra coisa pela qual devem estar todos ansiosos por saber: a comida! Neste ponto podemos dizer uma coisa, é picante! Não pensem que as pessoas exageram, ou que simplesmente não “aguentam”. A verdade é que eles são doidos por picante, doidos! Metem picante em tudo e a toda a hora. Nós, duas vezes que tomámos um pequeno-almoço tradicional, duas vezes que “chorámos” ao fazê-lo… De resto, é o caril, os comeres acompanhados por pão, os pratos vegetarianos, as sementes, as ervas, a galinha, por aí… Ir ao supermercado nem sequer é opção, tanto que procurámos por um e não encontrámos.

Confecionam e servem a comida de um modo a que não estamos habituados, mas não é por isso que deixa de ser má, tem o seu encanto. E o melhor mesmo é que se pode comer bastante bem, por um preço bem acessível. Aqui as refeições mais caras ficam pelos 3€, mas também se come bastante bem por 1€. Os autocarros custam cêntimos, os táxis poucos euros, assim como os comboios, que são bastante divertidos por aqui. Não têm portas, portanto as pessoas põem-se à espreita, para sentir a brisa do movimento. Quando o comboio está a chegar à plataforma, algumas pessoas entram ou saem dele ainda em movimento.

Os indianos são, em geral, muito simpáticos e prestáveis. No hostel, fomos tratados como uns lordes: pequeno-almoço e jantar servidos na caminha, incluído no preço! E depois ainda se levantavam quando aparecíamos e nos tratavam por Sr., ou nos pediam para tirar fotos com eles. Tudo com todo o respeito e atenção. A maior parte deles, são muito curiosos sobre toda a nossa vida. Ainda hoje nos arrependemos por exemplo de ter andado o tempo todo a desconfiar da simpatia do nosso guia, que no fundo só queria ganhar a vida. Outra coisa que também reparámos, é que eles nos estão constantemente a observar de cima a baixo, tanto que nós estranhamos. Mesmo entre eles, apercebemo-nos de grandes conversas e relacionamentos que se estabelecem em qualquer lado mesmo que ainda não se conhecessem anteriormente.

Depois existem outras chatices, os cuidados a ter blá, blá, blá. Era bom que fosse só conversa, mas a verdade é que os temos de ter mesmo! Dormimos dentro de mosquiteiras, temos o ar condicionado constantemente ligado e estamos sempre a colocar repelente. Para além do problema dos mosquitos temos o problema da água que não pode ser ingerida… Banhos de boca fechada, lavar os dentes com água engarrafada, etc. – a parte chata da viagem.

Fora isto, nós estamos a delirar com a Índia! É tudo tão diferente e especial… E agora cá estamos nós em Goa, terras já pisadas por os corajosos descobridores portugueses. Vamos tentar descobrir traços portugueses por aqui, parece que são bastantes. Entretanto, vamos vivendo esta Ásia selvagem, pouco desenvolvida e regrada, talvez mais próxima da natureza e que encontra a felicidade com as coisas simples… Um outro mundo este!

Kall melenge hum, ok dost!

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22 respostas a Na Índia nada é impossível

  1. Rita Moreira diz:

    Estou fascinada com a vossa viagem e ainda só li esta crónica mas só espero que se divirtam e aproveitem ao máximo essa oportunidade. Eu já viajei algumas vezes mas a oportunidade de fazer um Gap Year ainda não surgiu por isso aproveitem por quem não o pode fazer. :p
    beijinhos

  2. Gostei imenso da ultima crónica como sempre enganados pelo mafioso taxista ,têm que ter mais cuidado . A INDIA esta-vos a encantar ainda bem , hoje vou jantar fora com um casal amigo que faz 27 anos de casados ,continuação de boa viagem. . beijinhos.

  3. Sara Loureiro diz:

    Olá Gonçalo e Tiago! Desde já, quero-vos felicitar pelo trabalho que estão a desenvolver. É de valorizar o facto de rapazes tão jovens partirem para a descoberta do desconhecido e se estarem a “desenrascar “ tão bem.
    Esta crónica chamou especialmente a minha atenção, pelo facto de mostrar uma realidade tão distante da nossa. Gostei da descrição que fizeram e, de algum modo, os vídeos enalteceram-na.
    Desejo-vos muita sorte e aproveitem bem, porque experiências como estas são únicas na vida!
    Como já foi referido em cima, cuidado com a “higienização” existente nestes países, pode ser perigosa! Nem imagino a quantidade de bactérias andam por essas bandas😀

    Boa continuação,
    Abraço!

    • fllgapyear diz:

      Muito obrigado pelos elogios, e é verdade, os vídeos estão a revelar-se uma mais valia. Sim, nós iremos aproveitar, sempre com todo o cuidado possível.
      Obrigado

  4. Jorge Figueiredo diz:

    Meus caros hei-vos (apetecia-me escrever heis-nos, uma vez que me sinto um pedacinho integrante desta vossa aventura) de volta à “estrada”.
    Devidamente avisados (tantas foram as repetições) de que esta segunda etapa seria sustancialmente mais difícil, porém simultaneamente mais rica e enriquecedora.
    Parafraseando-vos parcialmente “ler o que se encontra pela internet não é o suficiente para se compreender…”, constitui muito provavelmente a grande mais valia resultante do saber de experiência feito que voçês vivenciam. Estou certo (os escritos revelam-nos isso) que as inúmeras experiências, farão de vós outros homens, mas sobretudo farão de vós melhores pessoas.
    Registo com agrado a mais valia da inclusão do vídeo nas crónicas que as tornam mais apelativas, uma vez que elas já eram ricas e apetecíveis.
    Não resisti à gargalhada perante a cara e o comentário não perceptível do Gonçalo, depois de “saborear” (as aspas são propositadas) e a loucura da viagem de moto táxi é de ir às lágrimas, uma vez que a vós foi-vos permitido a adrelina do gozo e do susto!!!

    Tentando finalizar com uma palavra adequada, assumo que o meu Karma é de forma gostosa e com redobrado interesse, acompanhar diariamente as vossas (nossas, desculpem-me a insistência) entusiasmantes viagens.
    Jorge Figueiredo

    • fllgapyear diz:

      Não tem nada que pedir desculpa, esse “nós”, é provavelmente das palavras mais gratificantes que nós podemos ler. Porque é esse exatamente o nosso objetivo final, muito obrigado por a usar!
      Ficamos contentes que toda a gente tenha gostado dos vídeos, já temos outros prontos a publicar.
      A Índia está-nos a enriquecer, tem toda a razão!

      Uma abraço,

  5. Manuela Marques diz:

    Pois é Gonçalo e Amigo, começou agora a vossa verdadeira aventura, e bem mais interessante e enriquecedora, por esse outro mundo cheio de enormes contrastes e onde “tudo é possível” Preparem-se, pois vão apanhar vários “murros no estômago” o que só vos fará crescer por dentro.
    A Índia exerceu sempre em mim um enorme fascínio, por tudo o que ela representa. Espero que o descubram.
    As vossas crónicas são sempre deliciosas. A ideia dos vídeos foi óptima, ainda mais vivacidade lhes acrescenta. Leio-as com o maior dos prazeres.

    Um beijo enorme para ti, meu querido Gonçalo e outro para o Tiago.

    • fllgapyear diz:

      Obrigado Manuela.
      A Índia “está-nos a dar que pensar”, toda esta cultura social toca-nos todos os dias que saímos à rua. Ainda bem que gosta da introdução dos vídeos, é ótimo para nós saber isso.

      Beijinhos!

  6. Olá Gonçalo & Tiago,
    Como já li aqui escrito, agora começou a vossa verdadeira aventura e, do meu ponto de vista, a mais interessante em termos de descoberta do mundo e de vós próprios. A vossa descrição é de uma vivacidade espantosa (quase se pode cheirar o caril…). Por outro lado, a ideia do video (foi muito difícil fazer o upload?) é uma excelente ilustração das vossas descobertas de um mundo até agora também desconhecido de mim. Tudo de bom para vós e, como vos aconselha a família, muita atenção. A tudo, que a segurança está primeiro.

    ps: deixei uma mensagem ao Gonçalo no facebook e já “gostei” do banco de ideias. A qq momento, dá-me a dica e começo.
    Um abraço,
    Ricardo Oliveira

    • fllgapyear diz:

      Sem dúvida a descoberta tem feito parte do nosso dia-a-dia, e os vídeos são realmente uma forma de viajarmos mais vezes juntos. O upload demora algum tempo, a ligação à internet não costuma ser muito boa, mas nada que alguma insistência e tempo não resolvam.

      Um abraço

  7. JPD diz:

    Obrigado pela vossa crónica e pelo vosso testemunho.
    A miséria que vocês relatam faz-nos pôr a cabeça na terra e sentir que há tanto por fazer…
    E apesar de tudo estão a visitar aquilo que se chama uma «economia emergente», com taxas de crescimento anuais a 2 digitos, com universidades reconhecidas internacionalmente, com muita mão de obra especializada.
    País de contrastes.
    Como diz o título da vossa crónica – Na India nada é impossivel.
    Termino com uma citação do Pai desse grande país – Mohandas Karamchand Gandhi:
    “O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente.”

    Boas viagens.

    • fllgapyear diz:

      É mesmo impressionante como é que um país deste género pode ter um crescimento económico tão expressivo… Sem dúvida uma país de contrastes Paulo.
      Gandhi libertou a Índia e agora, apesar de morto, continua a promover o seu desenvolvimento…

      Obrigado e abraço.

  8. Li e rereli a vossa cronica ,no entanto pelas fotografias já dava para ver a miséria em que esse povo vive ,mas os meninos saõ uns aventureiros como diz a XICA ,mas peço-vos que tenham muito cuidado olho bem aberto e proteção a todos os niveis e com a vossa saúde em especial. isso que os cronistas nos mostram a maioria dos turistas não vêm . Sempre juntos coma diz a mãe e a avó implora, esperemos que GOA tenha outra face- BEIJINHOS DO CORAÇÃO

  9. Gena diz:

    Olá meninos
    Pelo que temos visto e lido, estão a ter uma experiência diferente na segunda temporada da vossa viagem.
    Na minha opinião, esta vai ser mais importante a nível de vivência e formação pessoal do que a da primeira temporada.
    Quando falo com pessoas que costumam fazer viagens de sonho, ouço relatos e vejo fotos muito lindas, mas só de lindas paisagens e lindos monumentos.
    Talvez vocês voltem um dia com a vossa família e provavelmente, não lhes quererão mostrar os sítios “feios” que agora vêm.
    Mas para os meninos e para todos nós que vos acompanhamos nesta aventura, é enriquecedor, vermos que existe outra realidade nada bonita de se ver, mas que a maioria de nós desconhece! E que sirva no mínimo para darmos valor ao que temos, e que de tanto no queixamos.
    Os meninos já fizeram algo para mudar a vida de alguem, pois o vosso guia para o fim já andava com um ar mais feliz🙂
    Beijinhos e que tudo continue a correr bem como até agora!

    • fllgapyear diz:

      Obrigado Gena.
      Nós também pensamos, e agora constatamos, que esta viagem vai/está a ser a mais enriquecedora. Aqui aprendemos, tal como dizes, a dar valor ao que temos.

      Beijinhos

  10. MFA diz:

    Que mais posso acrescentar a tanto já dito nos diversos comentários?
    Vocês são um orgulho e um exemplo !!!
    Beijinhos
    MFA

  11. Cristina Saraiva diz:

    Como já tive oportunidade de dizer gostei muito, mas fiquei também um pouco preocupada e assustada com tanta miséria, tanta confusão, nada do que estamos sem dúvida habituados.
    Faço minhas as palavras da mãe, tenham muito cuidado e sempre atentos, nunca se separem, por outro lado tentem como é lógico divertirem-se e aprender muito, e continuem com as vossas maravilhosas reportagens, as fotos estão muito boas, beijinhos aos dois.

  12. Isabel Azevedo diz:

    Nós avisámos, e vocês sabiam, a 2ª temporada vai ser diferente, do início até ao fim. Vão ser muitos os contrastes com que vocês se vão deparar.
    Novas realidades, não é?… Pois é, perceber a “miséria” também nos enriquece, é muito triste mas ela existe.
    Quando vocês referem que não é comparável o que se lê com o que se vê e sente na Índia, pelas fotos que vocês nos colocaram à nossa disposição dá para perceber isso, estão muito bem tiradas e “muito esclarecedoras”.
    A crónica está muito boa, a reportagem fotográfica também, não param de me supreender!
    Na qualidade de Mãe vos peço: cuidados redobrados, muito cuidado mesmo! Sempre juntos e confiem desconfiado!
    Beijinhos.

    • fllgapyear diz:

      Realmente triste, mas a miséria é a realidade de muitas pessoas por aqui.
      Somos sempre cuidadosos em tudo, mas os conselhos nunca são demais…
      Muito obrigado

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