Moldávia e Roménia, cada um diferente do outro

A nossa viagem estava-se a tornar turística de mais, perfeita de mais, digamos. Visitámos dos melhores e maiores países do mundo, as cidades europeias mais belas, as mais industrializadas e desenvolvidas, as mais populadas e movimentadas, mas faltava-nos conhecer uma outra realidade muito diferente – a realidade de um país atrasado no tempo – a Moldávia.

Antes de mais, devemos tentar enquadrar a Moldávia na história e no tempo. A Moldávia pertenceu, concomitantemente,  em tempos à Roménia e à URSS, razão pela qual o romeno e o russo ainda são línguas oficiais deste país. Mas com a Rússia, as relações não se mantêm estritamente linguísticas… Ao falar sobre isto com habitantes do país, todos eles demonstraram uma enorme mágoa na dependência que a Moldávia ainda tem da Rússia, <<Eles usam-nos e roubam o pouco que temos>>. Tanto quanto nos disseram, a Rússia toma partido até nas decisões mais fulcrais daquele país… Em relação ao desenvolvimento, é notoriamente um país muito atrasado comparativamente ao resto da Europa. Por exemplo, a fatia económica mais importante do país continua a ser agricultura, com o (in)sucesso a depender do clima., repare-se.

Durante a nossa viagem de 18h, a partir da Ucrânia para a Moldávia, fomo-nos preparando para algo que seria “diferente”. Sabíamos perfeitamente que não seria, de todo, um passeio turístico. Mesmo assim, resolvemos perguntar no hostel o que haveria para visitar na cidade – foi-nos aconselhado a ir a uma rua, com uma catedral. Assim fizemos. Acordámos ao outro dia às 6.00h, sem despertador. Seria estranho dizer isso se não tivéssemos sido acordados por um galo a demonstrar o seu poder e o seu lindo cacarejar . Bem, não dormimos muito mais e partimos em direção ao centro da cidade. Achariam estranho e desconfiariam se vos disséssemos que visitámos todos os “pontos de interesse”, em 2 horas? Não é exagero, podem confiar. Visita essa muito calma e pacífica que só foi interrompida quando vimos um carro cujo automobilista resolveu andar por cima do passeio, fazendo dele um atalho, porque não?

Tendo já visitado tudo, tentámos então infiltrar-nos naquela sociedade e absorver o seu modo de vida… O melhor local para o fazermos, pensamos nós, é o mercado. Entre as romãs, as couves, a alface, o requeijão e as carnes, o que encontrámos foi um povo relativamente pobre mas a agir com naturalidade, um povo não satisfeito mas conformado. Felizmente tivemos a oportunidade de encontrar um ucraniano que trabalhava nos E.U.A. e que tinha família na Moldávia, o que o fazia ter um contacto mais próximo com aquele país. Contou-nos a história de um amigo médico que trabalhava 8 dias por mês, nos quais trabalhava durante as 24h diárias. Fazem ideia de quanto recebia ao final do mês, esse membro dessa “classe mais alta” do nosso país? Cerca de 200€. Chocados? Nós também… Em redor da cidade, eram ainda visíveis os vários bairros de “quase lata” que se amontoavam em ruas despavimentadas e sujas… Mas, por fim, achámos interessantíssimo ter a oportunidade de contactar com um povo que difere de todos pelo seu nível de vida. Deixámo-lo com a esperança de o ver evoluir…

Como planeado, deixámos a cidade um dia depois de lá ter chegado, desta vez de autocarro. Uma viajem, que mais uma vez, surpreendeu. Começou logo pelas duas vezes que tivemos de sair do autocarro na fronteira, com um “frio de rachar”, às tantas da manhã e ainda mal acordados. Mas devemos confessar que entrar na nossa União Europeia de novo valeu a pena, foi uma sensação difícil de explicar, quase como um alívio. O segundo percalço chegou às 7 da manhã, quando chegámos a Bucareste, 2 horas mais cedo do que pensávamos. Não tínhamos para onde ir, com tudo fechado, com poucas pessoas na rua e sem forma de nos orientarmos. Com fome, sem sítio onde levantar dinheiro e sem ninguém para nos ajudar tivemos que dormir por um pouco na central de autocarros. Mais tarde conseguimos arranjar indicações para alcançar o nosso grande objetivo – internet. Ao fim de uns largos metros, lá encontrámos um café com wi-fi onde escolhemos o hostel e percebemos o caminho a percorrer. Entretanto, conseguimos estabelecer contacto com um “amigo de Oxford” que habita a cidade e que se veio a demonstrar um grande aliado na exploração da metrópole.

Chegámos ao hostel, e logo após o check-in, saímos para nos encontrarmos com o Carol e o Andrei (um outro “conhecido de Oxford”, amigo do primeiro). À medida que metíamos a conversa em dia, caminhávamos já em direção ao primeiro monumento a visitar, o Arco do Triunfo. Segundo eles, usualmente fechado ao público mas, por sorte, nós tínhamos chegado à Roménia no seu dia Nacional. Logo dali, obtivemos uma ideia aérea da cidade, que se apresentou antiga, com grandes avenidas e com grandes espaços verdes. De seguida, fomos a um bar num 18º andar, de onde conseguimos deslumbrar novamente toda aquela extensão. Depois, foi hora de almoçar/jantar e para isso fomos ao “La Mama” onde comemos (o Carol há-de nos dizer). No dia seguinte, fizemos o famoso “walking around” (“andar por aí”) de todos os mochileiros. Desse passeio, retemos a dinâmica, a quantidade de cães na rua, os prédios debruçados pelas estradas, a grande actividade do pequeno comércio… Às 15h, tal como combinado com o Carol, fomos visitar o parlamento romeno, aquele que é o 2º edifício mais largo do mundo (atrás do Pentágono, nos EUA). Este edifício, mandado construir por Ceausescu, o grande líder comunista, abatido em 1989 na sequência de uma das mais importantes revoluções romenas, mede 270m de comprimento por 240m de largura, 86m de altura e 92m abaixo do solo. Por fora é imponente, por dentro é assustadoramente gigante. Tivemos dentro do edifício cerca de 30min e, segundo a guia, visitámos apenas 3% do edifício. O dia prosseguiu e a noite foi passada com uma visita guiada pelos cantos da cidade. Apercebemo-nos, porém, de um grande problema na Roménia: a grande diferença existente entre as duas etnias predominantes no país – os romenos e os roma, conhecidos habitualmente por ciganos. Infelizmente, parece que há uma grande dificuldade de integração destes últimos – do nosso ponto de vista, quer por culpa de uns, quer por culpa de outros. Ambos têm culpa nesta situação. Os romenos não gostam dos roma, primeiro porque dizem que os invadiram massivamente, depois pela associação que têm a crimes e, por último, por darem uma imagem internacional negativa da Roménia. Mas a verdade é que não vimos da parte de nenhum romeno a vontade de efectivar a integração dos roma. Um problema que, provavelmente, levará muitos anos a ser ultrapassado.

No nosso último dia na cidade, em que íamos aproveitar para dormir mais um pouco já que a cidade estava praticamente toda visitada, aconteceu algo que não nos deixou dormir mais. Eram por volta das 9 da manhã quando acordei (Tiago) para ir à casa de banho e, quando voltei ao quarto (partilhado com outros 11 jovens), cruzei-me com um que também estava a ir. Deitado e ainda sem ter voltado ao sono, vejo o rapaz a regressar da casa de banho e, do nada, a cair no chão. Inicialmente pensei que, provavelmente, estaria bêbado ou numa enorme ressaca, porque a queda dele foi exactamente como a de alguém que não se conseguia segurar em pé. Mas, passados uns instantes, reparo que ele estava a ter convulsões e a espumar da boca. Chamada a ambulância, ninguém sabia dizer se o rapaz tinha epilepsia ou se tinha algum outro problema, já que ele estava a viajar sozinho e ninguém sabia quase nada sobre ele. Enquanto os socorristas não chegavam, certifiquei-me que ninguém lhe tentasse enfiar nada na boca (o que erradamente se faz muito) e que ele mantivesse a cabeça de lado, para o caso de vomitar, não se engasgar. Mas com ele a mexer-se tanto estava complicado, então o melhor mesmo era apenas esperar que ele se acalmasse e deixá-lo o mais confortável possível. Entretanto, ele foi acalmando e, sozinho, deitou-se na primeira cama que viu vazia e, virando-se de um lado para o outro, puxava o cobertor para cima e para baixo, ainda sem perceção do que estava a acontecer. Tentavam falar com ele, mas ele olhava e não respondia e quando chegaram os paramédicos, medir a pulsação foi complicadíssimo. Ele parecia estar assustado com tudo, e queixava-se constantemente do braço. No entanto, e talvez uns 20 minutos depois de ter caído no chão, recuperou a consciência, e mostrou-se baralhado com tudo. Não se lembrava de um único segundo daquela situação, e ficou espantadíssimo quando acordou numa cama diferente do habitual e com tanta gente à volta. Foi levado para o hospital, e cerca de quatro horas e meia depois, regressou. Disse que nunca lhe tinha acontecido nada igual, e que ia querer voltar para casa, apesar de ainda ter uma semana de viagem planeada pela frente. Ficou com um hematoma na testa, com um ombro deslocado e com um corte na língua, por tê-la trincado inconscientemente. Não lhe souberam dizer se aquilo que aconteceu foi um ataque epiléptico, mas de qualquer modo, fica a suspeita. Nada de muito mais grave aconteceu, e pode-se dizer que teve alguma sorte por estar num quarto múltiplo e ter muita gente que o pudesse ajudar. Os hosteis podem, por vezes, não dar tanta privacidade ou comodidade como um quarto de hotel, mas em contrapartida, alguém que viaje sozinho nunca está sozinho.

Em conclusão, podemos dizer que apesar de a Roménia ser um país que não deslumbra, é sem dúvida um pais muito confortável e acolhedor, que nos recebeu muito bem e onde passámos uns dias divertidos.

Vezi tu, prietenii lui!

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Uma resposta a Moldávia e Roménia, cada um diferente do outro

  1. Mais uma viagem para mim imaginária para vós real.A Roménia um país ,que segundo a vossa forma de ver está cheia de contrastes ,não é um país rico ,as fotografias assim o demonstram ,mas por vezes é nestes locais que os seus residentes são mais afáveis ,estão a terminar a vossa primeira temporada, muito mais terão para nos relatar.BEIJINHOS E BOA VIAGEM DE REGRESSO

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s