A Ucrânia, como não a pintam…

Ouvimos tanta coisa sobre este país que ao chegar nos encontrávamos, no mínimo, receosos.  As pessoas diziam que era inseguro, mafioso e estranho e nós dizemos que é seguro, normal e muito interessante. É desta Ucrânia que vos vamos falar…

Kiev agarrou-nos e seduziu-nos logo no primeiro dia ao apresentar-se muito dinâmico. Saímos à rua com um calor imenso – estavam 5º C, sem vento e com um céu descoberto – dos melhores dias que temos apanhado ultimamente. De  metro (novamente extremamente barato- 19 cêntimos para todas as zonas), viajámos até um dos extremos  da cidade antiga. Aí visitámos o museu de Chernobyl que foi, para nós, extremamente enriquecedor. Aquele acontecimento, que, com certeza, todos os “jovens” leitores se recordarão, ainda mata e marca muitas e muitas pessoas deste povo… Depois, e como muitas vezes fazemos, lá nos fomos perder pela cidade. Enquanto caminhávamos acabámos por descobrir um mercado tradicional, em que se viam bancadas cheias de carne, peixe, legumes e frutas, bastante caviar, flores, frutos secos e especiarias. Uma mistura de cheiros agradáveis, completada pelo modo tradicional como os produtos eram preparados e vendidos. Tudo mesmo muito barato. O mercado prolongava-se pelas ruas, onde pequenos agricultores e produtores vendiam o excesso das suas produções agrícolas. Continuámos a caminhar até as 4 da tarde onde, já no centro da cidade, nos viemos a juntar à walking tour noturna. Logo nos primeiros 5 minutos ficámos a saber mais sobre o país onde nos encontrávamos – um país com 20 anos que viu muito da sua cultura e história negadas durante o tempo em que pertenceu à União Soviética. O próprio país ainda permanece em modificações constantes. Ainda em 2004 se deu uma revolução conhecida como Revolução Laranja, que reclamava a impugnação das eleições. A verdade é que a contestação têm vindo a decrescer, o que de alguma forma tem contribuído para o elevado nível de corrupção política existente. Veja-se que cada deputado recebe 10 vezes mais que o ordenado mínimo nacional, este que corresponde a mais ou menos 150 euros. Neste país, encontrámos igualmente outra realidade política que choca – a grande maioria dos políticos têm empresas privadas para as quais os populares dizem que as leis são feitas (<<todos eles são milionários>>, afirma o guia turístico). O resto da tour foi feita por edifícios governamentais. E assim se passou o dia…

Nessa noite fomos sair, mas antes disso achámos melhor perguntar ao rececionista se sair tarde à rua poderia trazer-nos problemas e revelar-se perigoso para a nossa segurança, ao que ele responde que é completamente seguro e que o maior problema que poderíamos encontrar era policia (cada um tira as suas próprias conclusões). Saímos alegres e contentes pois pensávamos que a noite seria, também ela, baratíssima. Enganados! Para entrar numa discoteca que nos aconselharam teríamos de pagar 25 euros cada – voltámos para casa. Mas ao regressar, passou por nós um ucraniano que parecia estar a falar para nós. Começámos por ignorar, mas depois dele insistir, olhámos para trás e dissemos que não falávamos ucraniano. Ele respondeu a dizer que estava a falar ao telemóvel. Desligando a chamada, disse que estava com problemas com a namorada e quis manter conversa connosco, porque dizia precisar de treinar o inglês. Professor universitário, programador e jogador de futebol americano ainda nos seus 20 e poucos anos, aceitou o convite de ir até ao nosso hostel beber um copo de leite, já que não consumia bebidas alcoólicas. No final de conversarmos um pouco, sugeriram-nos outro bar e ele acabou por querer nos acompanhar novamente. Ao chegarmos, ele achou melhor ir para casa, mas nós por lá ficámos. Na discoteca do género pop-rock, 70% das pessoas estavam bêbadas e 30% para lá caminhavam. Uma noite diferente, mas divertida. No dia seguinte, bem pela manhã, estávamos acordados. Tínhamos combinado fazer uma nova walking tour, desta vez pelo outro lado da cidade. Visitámos uma parte mais turística e mais bonita, na qual verificámos que muitos monumentos já tinham sido destruídos e erguidos várias vezes, uma vez com Stalin, na altura presidente da URSS, que tentou eliminar a história ucraniana e, depois disso, durante a ocupação Nazi na Segunda Guerra Mundial. No final da visita, a guia aconselhou-nos um local onde poderíamos encontrar uma grande variedade de comida tradicional e fez questão de nos acompanhar e ajudar na escolha dos pratos. Dois pães, uma sopa, um prato de carne, um de peixe e uma tigela de legumes ficou-nos pela módica quantia de 4.40€, o mesmo preço que um Big Mac em Carregal do Sal. A guia, simpática e excecionalmente atenciosa, passou o almoço connosco, assim como o resto da tarde para visitarmos locais menos turísticos mas igualmente muito bonitos. Numa dessas paragens, a meia hora da cidade, fomos capazes de respirar ar puro pela segunda vez nesta viagem.

O último dia ficou para visitar os pontos de interesse que ainda nos faltavam.

Em suma, Kiev revelou-se a maior surpresa da viagem. Uma cidade da qual esperávamos tudo menos a forma como nos recebeu. Uma cidade simples mas bonita, calma mas dinâmica e intensa mas segura (a única vez que fomos roubados aqui, foi no Mc Donalds pois apercebemo-nos, já dentro do comboio, que nos faltavam os nuggets, o ketchup e a maionese). Um país cheio de tradições , lendas e histórias, com uma gastronomia fantástica e saborosa (onde se cozinha muito os cogumelos, cebola e se utilizam muitas especiarias) e com pessoas divertidas e simpáticas (nos autocarros os passageiros de trás vão passando o dinheiro para os da frente para que ele chegue ao condutor, não há mais controle do que o bom-senso individual). Definidamente, Kiev não é como o pintam, é, deveras, uma cidade a visitar e estudar por tudo o que tem para oferecer. E quem sabe, se este ano, Portugal não se consagrará campeão europeu neste país? É verdade, todos os ucranianos estão inacreditavelmente ansiosos pelo Euro 2012, a propaganda é abundante pelas ruas e já há um grande trabalho conjunto a ser desenvolvido para aquilo que será um evento muito importante no país… Pensamos que realmente existe um grande esforço da população para que o país seja bem reconhecido no exterior e para se demarcar cada vez mais da Rússia, o que aos poucos e poucos, vai sendo conseguido.

до побачення, компаньйон!

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6 respostas a A Ucrânia, como não a pintam…

  1. Manuela Marques diz:

    Outra boa crónica.
    Não podemos julgar um povo pelo comportamento de alguns.
    Há países, cidades, lugares que imediatamente nos conquistam. Outros bem “difíceis” mas nem por isso menos interessantes. Observem bem as pequenas, grandes diferenças culturais. São elas que dão identidade a um povo neste mundo, cada vez mais globalizado.
    Sigo a vossa aventura com o maior interesse
    Beijinho
    Manuela

  2. gostei de ler a vossa crónica ,como aliàs todas, sinto que estou a viajar com os meninos, ainda não visitei a Ucrânia ,no entanto gostaria de visitar, quem sabe! se um dia!!!!! não o farei? muitas vezes construimos ideias falsas das coisas que não conhecemos,,continuem a enviar as vossas aventuras , Beijinhos e atè breve!!!!!!!!

  3. joao paulo dinis diz:

    “O contágio dos preconceitos faz crer muitas vezes na dificuldade de coisas que não têm nada de difícil.”
    Autor – Baroja , Pío

    Continuem a vencer os preconceitos e boas viagens.

  4. Gena diz:

    Sim, realmente temos tendência a jazer julgamentos errados de pessoas e neste caso de sítios, por causa de meia dúzia de histórias mal resolvidas. Refiro me a alguns emigrantes ucranianos que deixam envergonhados o seu país, mas acredito que também cá há, boa gente honesta e trabalhadora, mas desses temos tendência a falar menos.
    A vossa crónica, os vossos olhos, fizeram que eu veja o país de outra forma: gosto da Ucrânia!
    Entre outras, gostei da cena do dinheiro a passar de mão em mão até ao motorista.
    Sorte a vossa de arranjarem uma guia assim tão simpática e disposta a fazer horas extra.

    До наступного разу! поцілунок

  5. Isabel Azevedo diz:

    Eu fui uma daquelas pessoas que “pintava” a Ucrânia de negro. Mas depois de ver o sorriso das pessoas nas vossa fotos, depois de ler a vossa crónica, parece tão real, que quase me transporta para lá… acho que acabei de mudar de opinião, já gosto de Kiev mesmo sem lá ter ido.
    Gostei muito e as fotos também são muito boas, já sei que as vão comentar, por isso lá vou eu fazer uma 2ª visita…
    Beijinhos e não se esqueçam, continuem sempre bem juntinhos.

  6. MFA diz:

    Deliciei-me com esta crónica…
    Principalmente pelo tom entusiástico que lhe deram, pela (boa) surpresa que foi para vocês e pelo completo descritivo.
    Uma crónica “simples”, mas muito boa.
    Uma verdadeira estória com histórias.
    Parabéns e continuem a premiar-nos com esta vossa aventura, queridos Lobos Aventureiros.

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