Moscovo, uma cidade gelada…

Naquela madrugada, Moscovo estava a congelar e nós a morrer de sono (Rogámos tantas pragas àquele revisor… Bem, “águas passadas”!). Eram 8.20h e só queríamos descansar, nada melhor do que não encontrar o hostel para cumprir o objetivo… Andámos para a frente e para trás vezes sem conta, gesticulámos e assobiámos, apontámos, descrevemos e até russo falámos, mas nada, ninguém nos conseguia ajudar. Começávamos a pensar que não existia, até que um senhor de uma lavandaria nos ajudou, telefonando para a receção do hostel. Dormimos e à tarde escrevemos a crónica. Ah, é verdade, quando chegámos ao nosso quarto encontrámos um sr. com os seus 50 anos, a dormir em cima de um colchão, literalmente no meio do quarto, pálido, careca, com os dedos cruzados e em cima do peito, parecia estar… até que de repente levantou a mão e começou a gemer durante uns longos segundos… Viemos a saber que era um “médico” conceituado de medicinas alternativas. Durante a semana snifou líquidos, esfregou cremes nas mãos durante horas, meditou, fez barulhos noturnos e uma cura ao “David Guetta”, de loucos não?

No dia seguinte, levantámo-nos bem cedo e partimos rumo à descoberta de uma cidade que já sabíamos ser diferente da anterior, foi isso que constatámos… São Petersburgo é para nós, uma cidade muito mais turística, mais europeia, mais antiga e mais bonita. Tudo o resto são pontos comuns, as pessoas são iguais e, infelizmente, falam o mesmo inglês. Quantas vezes não nos aconteceu, por exemplo, estarmos a tentar perceber alguém e depois chegar uma outra pessoa para nos ajudar a falar igualmente em russo. Bem, uma comédia…

Vimos muita coisa naqueles 3 dias que passámos na cidade e, desta vez, resolvemos variar um bocado entre igrejas, catedrais, mosteiros e monumentos religiosos. Achamos que podemos dizer que saímos da Rússia, de alguma forma, purificados! Começámos o nosso “giro”  pela praça vermelha, onde visitámos mais uma “candy church” (Catedral de São Basílio) e o Lenine – mal sabíamos que o íamos encontrar por lá… Muitos polícias, muitos militares, muitas precauções para ver o líder da revolução russa de 1917. Lá estava ele com a mesma cara, numa urna envidraçada em frente da qual só pudemos permanecer escassos segundos. Saímos de lá com uma sensação estranha, entrar naquela sala foi, no mínimo, bizarro. Sabíamos perfeitamente a influência que Lenine tinha tido não só na história da Rússia, como também na de todos os países da ex-URSS e mesmo na de todo o mundo. Arriscaríamos a dizer que Lenine constituiu uma mudança ainda hoje visível no planeta inteiro.

Outra visita que gostaríamos de destacar, foi a visita ao Kremlin, não pela sua beleza interior (inquestionável, ainda para mais sob uma fina camada de neve), mas por toda a vida política que com ele está envolvida. É no Kremlin, numa área de mais ou menos 30 hectares, que se encontram a trabalhar (e a viver, no caso do Presidente da Federação Rússia) as mais altas figuras de estado e, devido a isto, a segurança é máxima mas, mesmo assim, diferente de todos os outros países onde já tivemos. Porquê? Alguém se arrisca a dizer? Nós tirámos as nossas conclusões… Voltando ao assunto, cada canto do interior das muralhas é patrulhado por um polícia, cada bloco vigiado por câmaras, cada político por seguranças e seguranças que se agrupam em carros topo de gama, que abrem caminho nas ruas a cada passagem de um carro oficial. Curioso…

De resto, visitámos: Arbat Street, Gorky Parque, Fallen Parque, mosteiro e cemitério de Novodevichy, mosteiro de Simonov e as ruínas de Krutitsy. Ainda tentámos visitar a Catedral de Cristo Salvador, mas as filas prolongavam-se por muitos quilómetros (12h de espera, diziam), pois no seu interior encontrava-se, temporariamente, o cinto da Virgem Santa. Quem acredita diz que aquela relíquia religiosa contém poderes milagrosos, ajudando no tratamento da infertilidade e do cancro.

Uma coisa que nos surpreendeu em Moscovo, foi a riqueza das estações metropolitanas, cada uma delas assemelha-se a um salão real – encantadoras. Menos encantadoras, foram as muitas vezes que fomos passados na fila – parece que por aqui, “em furar, é que está o ganho”…

Infelizmente, em Moscovo foi mesmo muito difícil investigar o modo de vida das pessoas, não conseguíamos comunicar. Valeu-nos conhecer a Ekaterina, que regressava ao seu país de origem depois de 3 anos de trabalho em Portugal, como dizia: “as coisas não estavam muito bem por lá, não há oportunidades”. A jovem intérprete falou-nos um pouco do povo russo, descrevendo-os como fechados para estabelecer um primeiro contacto, mas muito abertos ao estabelecimento de relações fortes.

Depois destas duas semanas de sensações extremas e pura descoberta, tínhamos de regressar à viagem. Comprámos os bilhetes e lá fomos nós para a estação. Mas não íamos embora da Rússia sem mais uma peripécia… Durante alguns minutos, não nos quiseram deixar entrar no comboio. Diziam “niet visa Ukraine” e nós fartos de saber que não o tínhamos, pois os cidadãos portugueses não o necessitam para entrar naquele país. E para lhes explicar isso? Lá tivemos de esperar e esperar até que veio alguém que nos autorizou a entrar. Já lá dentro, bem, parecia que nem era real… Deitámo-nos e 5 minutos depois estávamos rodeados de homens que chegavam aos poucos, do género: “venham ver, são portugueses!”. Quiseram saber de tudo. O que fizemos em Moscovo, para onde íamos, como viemos, como íamos, os empregos dos nossos pais, se as mulheres em Portugal eram bonitas, etc. Ainda por cima, fomos afortunados ao ponto de ficar a saber a vida completa de cada um daqueles simpáticos homens e, inclusivamente, mostraram-nos fotografias de casamentos das irmãs, hilariante! Apesar do seu esforço para se fazerem entender e da sua simpatia, uma hora depois, lá os conseguimos despachar pois queríamos dormir.

Adormecemos, enfim, a pensar numa cidade e num país diferente dos outros, mas não por isso com menos valor. Uma nação que foi gelada no tempo, é gelada na temperatura, no rosto das pessoas e na forma como vivem. Uma nação que foi marcada por uma história, mas que a vive de forma muito especial…

до скорой встречи, товарищи!

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3 respostas a Moscovo, uma cidade gelada…

  1. isabel azevedo diz:

    Mais uma crónica vivida e sentida.
    Esta vossa estada nesse país frio, e tão diferente de todos os outros por onde vocês já tiveram oportunidade de passar, foi “apimentada” por dificuldades que vocês não estavam habituados. Todas as peripécias que nos contam na crónica e diáriamente no skype, tornam esse passeio por terras da Rússia inesquecível, quer pela beleza dos monumentos, quer pelos rostos “carregados” das pessoas, quer pela barreira da língua.
    É bom saber que os nossos jovens, apesar de todos os obstáculos com que se depararam, se conseguiram desenvencilhar tão bem.
    Com certeza que é uma passagem que não vão esquecer.
    Continuem a aproveitar e a viver cada momento, porque é uníco e sempre gratificante.
    Mantenham-se de olhos bem abertos e sempre da forma que a lapa está para a rocha, bem juntinhos e “agarradinhos”.
    Beijos muitos.

  2. Cilene Lindinho diz:

    Dentro do Kremlin estive literalmente dez minutos impedida, pelo polícia, de atravessar a rua, na passadeira, porque estava para passar o então presidente, Ieltsin. E lá passou ele num potente carro de vidros fumados que nem o vimos. E para fazer ângulo para uma foto coloquei um pé fora do passeio. O que aconteceu? Uma apitadela do polícia. Peripécias russas. Mas são estas coisas que tornam os países\cidades inesquecíveis. Divirtam-se.

  3. Segundo a vossa descrição, MOSCOVO não foi uma cidade que vos entusiasmou muito, no entanto as fotos revelam uma cidade com muita história antiga e recente, esperamos pela próxima referente à Moldávia.

    BEIJINHOS .

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