Estocolmo, a cereja no topo do bolo

No próprio dia em que partimos para Oslo, decidimos atirar-nos para o meio do nada. Saímos bem cedo de Gotemburgo, onde tínhamos passado a noite e metemo-nos no primeiro autocarro que passava pela aldeia mais próxima de pequena dimensão (neste caso de 286 habitantes) – não podíamos ter feito melhor. Parámos numa zona descampada com algumas casas em redor. Como tínhamos em vista dormir no local fomos à procura de alojamento, disseram-nos num minimercado (onde nem sequer havia água sem gás), que o motel mais próximo ficava a 5km do local, o que se tornava inviável para nós. Conclusão: tivemos de andar com a casa às costas!

Começámos por explorar a zona habitada e qual não foi o nosso espanto quando encontrámos o que nos parecia uma escola – a oportunidade perfeita para recolher informação! Entrámos e logo nos apercebemos que acabávamos de entrar numa primária. Naquele momento, estava uma turma a sair da aula acompanhada por um professor que logo nos questionou como nos poderia ajudar. Contámos a nossa história e perguntámos se haveria a possibilidade de falar com alguém. A resposta foi simpática, atenciosa e positiva, 1 min depois estávamos à porta do gabinete do diretor. Como ele não estava na escola tivemos de aguardar por uns momentos. Durante esse tempo não podíamos ter sido tratados de melhor forma: primeiro o sorriso de cada auxiliar que por nós passava, depois as conversas que tivemos com vários professores, o acesso à internet que nos ofereceram e, por duas vezes, chegaram a contactar o director para ver se ainda demorava muito. Entretanto, os miúdos iam-nos constantemente fazendo perguntas, numa mistura de inglês e sueco, ao mesmo tempo que tentavam pegar nas nossas mochilas a ver quem tinha mais força. Assim que chegou, e apesar de estar a 1h de uma reunião, o headmaster recebeu-nos amavelmente no seu gabinete. Achamos que podemos resumir a conversa que se sucedeu em interessante e produtiva pois foram várias as informações de qualidade que dela retirámos. Desta vez, optámos por as reproduzir por tópicos:

Número de alunos: 155

Número de pessoal docente e não docente:  24

Disciplinas: Sueco; Ciências; Matemática; Educação Física; Inglês (a partir do 2º ano)

Actividades extra curriculares

-mensalidade de 100€/mês

-actividades lúdicas (bordados, desporto, jogos)

-funciona no final das aulas

Horário Escolar:

-escola aberta das 6.00h às 18.00h

-aulas decorrem das 8.45h às 13h/14h/15h (dependendo do ano)

Custos escolares:

-tudo grátis (alimentação, livros, transportes e visitas de estudo)

-por ano os pais podem contribuir no máximo com 10€

-o computador é oferecido por todos os munícipes no 5º ano (existe uma taxa municipal específica para o efeito)

Avaliação

-Notas de A a E (a cada letra corresponde uma série de conhecimentos e competências)

Laroplan (uma espécie de bíblia escolar):

-contém todos os objetivos éticos, cognitivos e cívicos que um aluno deve ter em cada nível de ensino, do 1º ao 9º.

Boas ideias:

-planning book:

-os alunos escrevem diariamente o que vão estudar no próprio dia

-no final da semana fazem a sua auto-avaliação

-os professores fazem, semanalmente, uma avaliação apreciativa onde referem o que os alunos têm de melhorar

-os pais consultam muito regularmente o livro e veem se os objetivos foram cumpridos

-no final de cada período há reuniões com os encarregados de educação

-falam sobre o aproveitamento dos alunos

-discriminam as matérias onde os alunos necessitam de se aplicar mais

-os professores são obrigados a planear aulas em conjuntos segundo a “bíblia”

-os professores trabalham muito no sentido de arranjar um bom ambiente (como disse o diretor <<primeiro confortáveis depois a estudar>>)

Acabámos, agradecemos imenso a hospitalidade e arrancámos para a nossa expedição rural. Vimos uma igreja, um cemitério, longos campos, um agricultor que não falava inglês e várias casas de madeira. A nossa esperança era mesmo encontrar algum sítio para dormir (ou que alguém nos oferecesse), mas nada!

Sem mais que visitar e sem sítio para dormir, decidimos caminhar estrada fora e pedir boleia de volta a Gotemburgo. De um momento para o outro, lembrámo-nos que o melhor seria ir de vez para Oslo, em vez de ficarmos mais um dia que não serviria para nada. Para isto, tínhamos de arranjar transporte para sair daquela aldeia e ir para a central de comboios, mas os carros pareciam não querer parar. Começámos a caminhar e íamos contando as boleias recusadas, até perdermos a conta, e acabou por ser um autocarro a tirar-nos dali. Chegámos à central, e, a partir daí, vocês já sabem…

Regressámos à Suécia dia 29, desta vez para Estocolmo,  cidade da qual viríamos a gostar mais e a ficar mais tempo, isto tendo em conta tudo o que vivemos naquele local. O mar entrava e envolvia-se com tudo o que existia na cidade, construída toda ela sobre 14 ilhas de uma beleza apaixonante, cheias de história e de construções antigas e bem conservadas. Estocolmo tem um ordenamento de território muito bem conseguido, separando os locais mais antigos das grandes zonas comerciais. A Cidade Velha é um exemplo muito explícito disso. Trata-se de uma área muito antiga onde podemos encontrar o Royal Palace, o Parlamento, o Nobel Museum e andar por ruas estreitas (sem carros) onde as lojas tradicionais e de souvenirs se acumulam. Numa das vezes que passeávamos por lá vimos um restaurante que servia almôndegas tradicionais (meatballs) e, esfomeados, entrámos para almoçar. Estranhamente, parecia ser carne de vaca, mas ao que viemos a saber dois dias depois, era carne de rena. Nunca tínhamos comido, mas gostámos bastante e aconselhamos! Saindo da parte antiga da cidade e falando da zona comercial já referida, a rua Victoria Queen e arredores são os locais onde se situam a maior parte das lojas, sendo a HM a mais frequente (via-se esta loja de roupa, com origem naquele país,  em todo o lado, era uma praga!). Outra grande multinacional sueca bem conhecida é a IKEA. Soubemos pelo guia de uma walking tour que esta loja tem um catálogo que tem mais leitores que a Bíblia, e que a maioria das gamas dos sofás têm nomes de locais suecos e a gama de tapetes de locais dinamarqueses, para que as pessoas possam estar no “conforto da Suécia” e com os “pés na Dinamarca”. Isto mostra a rivalidade ainda existente entre os dois povos, que remonta à história. Segundo o guia, o território que é actualmente norueguês em tempos pertenceu à Dinamarca e os suecos, aliados aos russos, conquistaram-no. Actualmente quando um sueco quer contar uma anedota, usa os dinamarqueses como chacota e vice-versa. Nesta walking tour foram-nos contadas muitas mais coisas interessantes, entre o mistério da morte de Olof Palme e a recompensa ainda existente de alguns milhões de euros para quem descobrir quem foi o seu assassino, a história por detrás de alguns locais e, em jeito de curiosidade, a origem do termo “Síndrome de Estocolmo” que é simplesmente fascinante. No final da visita fomos aconselhados a visitar alguns locais, o que fomos fazendo ao longo da semana. O Vasa Musset foi um dos museus mencionados e visitá-lo foi deveras impressionante, a começar pela bilheteira pois a entrada era gratuita a jovens e estudantes, algo que vimos muito acontecer nos países nórdicos. Mas há muito mais a visitar em Estocolmo, deixamos umas pequenas sugestões: Museu Nórdico, CITY HALL, Sansken Outdoor Museum (uma espécie de vila antiga com um zoo à mistura), Drottningholm Palace (onde vive a família real) e o mercado de Östermalms Saluhall onde se pode encontrar uma grande variedade de comida tradicional “barata”. Sobre este tópico devemos dizer que gostámos muito da comida, desde a rena ao alce e salmão, tudo maravilhosamente diferente e delicioso. Uma vez que tivemos mais tempo, também fizemos mais refeições em casa. Como ainda não acertámos com as quantidades, convidávamos sempre alguém quando víamos que a comida era de mais. Numa dessas vezes jantou connosco um emo vegetariano que só comeu massa e noutra o rececionista do hostel que, tal como o Sasha, também era russo (mas este não comia a comida que os hóspedes deixavam no frigorífico). Ainda neste âmbito gostaríamos de vos falar do que consideramos o melhor momento da viagem – o jantar com Tânia Costa e David Dias. Por uma sequência de mensagens e chamadas, combinámos encontrarmo-nos num restaurante próximo do nosso hostel, para o qual já tinham reservado mesa. O primeiro sentimento foi de reencontro apesar de nenhum de nós se conhecer diretamente, mas a verdade é que foi essa a sensação pois muitas coisas nos ligavam. Gostámos muito do jantar e do “copo que se seguiu”, pela partilha de ideias e experiências que tivemos. Aqueles dois jovens adultos foram uma grande inspiração para nós, ensinaram-nos e falaram sobre coisas que nenhum de nós sabia. Ambos estão, neste momento, a tirar o doutoramento em Estocolmo. Ambos apoiados por bolsas portuguesas, no caso da Tânia anteriormente apoiada pela Fundação Lapa do Lobo (mais um ponto de contacto). A Tânia, uma mulher inteligentíssima e muito simpática, estuda e investiga neste momento o cancro da mama e do pâncreas. Neste campo já apresenta grandes resultados tendo já feito uma grande descoberta que pode vir a diminuir substancialmente o efeito negativo da quimioterapia (parece que vem algo grande a caminho…). Já o David igualmente inteligente e bastante bem disposto, investiga formas de reverter a paralisia motora. Este homem, com apenas 26 anos já viu um artigo seu publicado na melhor e mais lida revista científica do mundo – Science – e prepara-se para o lançamento de um segundo artigo de igual dimensão. Já foi um privilégio poder jantar com dois jovens promissores, como se ainda não bastasse resolveram pagar o jantar. Ao longo desta refeição os dois foram-nos dando a provar dos melhores pratos que o país tem, ao mesmo tempo que nos falavam da cidade. Achamos que podemos tentar resumir algumas coisas interessantes que ali foram faladas. Primeiro de tudo, os suecos são um povo muito regrado e com pouco bom senso. Seguem estritamente as regras existentes e, quando não as há, ficam desorientados, veja-se as inúmeras regras que existem quanto ao consumo de álcool. Em termos de sociedade, há uma tendência para guardar os problemas para si próprios, assim como não há o habito de falar com pessoas “estranhas”. Tome-se como exemplo o silêncio que se há no metro ou no supermercado.  Outra situação interessante é o incentivo que existe à natalidade: todos os pais tem direito a 1 ano de licença a dividir pelos dois, além disso quem teve filhos recentemente não paga transportes públicos (que são muito dispendiosos na cidade). Já quando os filhos crescem, e assim que atingem a maioridade, geralmente saem de casa e começam uma vida muito mais independente dos pais. Se calhar por terem estas relações interpessoais mais reduzidas, e também tão poucas horas de sol durante o inverno, o suicídio é muito frequente neste país. Quando alguém vai a uma festa, por curiosidade, cada um deve levar uma flor, a sua bebida, a sua própria carne e, claro, toda a gente se tem de descalçar. Mas isso não implica que as pessoas sejam menos simpáticas, porque na realidade foram sempre muito atenciosas connosco, tanto que em Gotemburgo, desde o percurso da central de comboios até ao hotel, 4 pessoas nos interpelaram para ajudar, sem que fosse necessário nos dirigirmos a elas. Nos bilhetes de metro geralmente deixavam um de nós entrar de graça ou então davam-nos mais 15 minutos de viagem. Aconteceu ainda uma vez que nos fizeram um desconto por não termos dinheiro suficiente. Outra coisa de realçar é o facto de aqui não haver doutores como em Portugal. Aqui as pessoas são tratadas pelo nome com igual respeito e dignidade, não é o “doutor” que as torna mais ou menos importantes.

No final deste jantar muito enriquecedor e muito divertido, combinámos uma visita ao Instituto Karolinska onde o David trabalha. Bem, a nossa visita guiada foi simplesmente inspiradora. Os materiais, as ferramentas, as experiências com ratos, os métodos, a tecnologia, o conhecimento, a experiência e a inteligência que naquele laboratório encontrámos foi no mínimo entusiasmante.

Estocolmo é uma cidade quase perfeita de visitar, não fosse o nível de vida… É difícil encontrar um local que tenha refeições económicas, o que nos fez aproveitar a cozinha do hostel e cozinhar mais vezes. Mas mesmo as compras do supermercado eram caras, porque tanto 1.5L de água como um pão custavam por volta de 1€ cada.

Desta vez, e como já tínhamos visitado a City Hall e recolhido algumas informações, resolvemos visitar uma nova entidade: a Embaixada Portuguesa. Tentámos contactar o diplomata português mas infelizmente  não obtivemos qualquer resposta.

Passada uma semana e um dia desde a chegada, era hora de ir embora. Recolhidas as informações de transporte, fomos até ao metro para seguir viagem até ao porto de ferries, e depois seguir viagem até Tallin. Mas com o atraso de preparar o jantar e ainda um pequeno erro na saída do metro, corremos um bocado, comprámos o bilhete e chegámos em cima de hora. A viagem foi de 15 horas, cruzando o mar báltico pela noite.

Aqui, em Talim, são agora 22.00h, hora de ir dar uma volta pela cidade.

Se dig nästa gång, kompisar!

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12 respostas a Estocolmo, a cereja no topo do bolo

  1. Marlene diz:

    E a foto com as Portuguesas nortenhas que encontraram por lá numa das ruas de Estocolmo??
    Tenho adorado ler as vossas crónicas:) Continuem o excelente percurso que têm feito e deixem-nos a par das novidades….!

  2. MFA diz:

    Esta crónica é um bolo, com várias camadas saborosas, com açucar q.b., intercaladas por deliciosos recheios, terminando, como referem, com a cereja no topo.
    Mais uma aventura destes Lobos sempre atentos e perspicazes.
    Obrigada!
    Beijinhos

  3. ótimo o vosso comentário cheio de experiências divertidas e outras mais sérias, continuem exploradores, que nós à distância continuamos a viajar com os meninos!!!!!!!!

    beijinhos .

  4. Já tinha ouvido falar deste projeto, mas só agora tive conhecimento da vossa página, e depois de ler o vosso depoimento revi toda a viagem que fiz a Estocolmo, toda essa descrição é sem dúvida a realidade dessa cidade. Já conheço praticamente todos os países da Europa e sem dúvida “Estocolmo, a cereja no topo do bolo”. Penso que um dos objetivos, é viajar com pouco dinheiro, a viagem para Tallin teria ficado mais barata de avião do que de ferry. Fico à espera da descrição de Tallin, também adorei, a parte antiga da cidade é simplesmente fantástica, os bairros a lembrar a antiga união soviética, e uma cidade com pessoas muito jovens, há poucas pessoas na terceira idade. Não sei se faz parte do vosso roteiro, mas se tiverem oportunidade, vão a Helsínquia, para verem a diferença que em relação a Estocolmo, um dia chega, vão no primeiro ferry da manhã e voltam no último do dia.

    Continuação de boas viagens

    • fllgapyear diz:

      Obrigado pelas sugestões, foi exatamente o que fizemos, só que a seguir a Helsínquia viemos para São Petersburgo.
      Talim foi uma cidade da qual gostámos muito e a crónica já foi lançada. Esperamos que goste.
      Cumprimentos

  5. isabel azevedo diz:

    Como durante o fim-de-semana não tive grande oportunidade de falar convosco sobre a vossa estada em Estocolmo, bastou ler esta crónica para perceber o entusiasmo com que vocês falavam sobre essa cidade e sobre a vossa “excursão” aquela simpática aldeia, da qual já nos tinha falado mas agora mais ao pormenor.
    Só posso acrescentar que está ***** e inspiradora…, continuam a não defraudar as nossas expectativas, não falo só na qualidade de Mãe (essa é previsível), falo como “espectadora” assídua.
    Continuem assim, BEM!
    Bjs mts

  6. joao paulo dinis diz:

    Boa descrição.
    A vossa descrição do metro fez-me recordar que em Portugal há bibliotecas mais barulhentas :)).
    Continuação de boas viagens.

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