Noruega, o país das maravilhas…

Chegámos a Oslo por volta das 9.40h, procedentes de Gotemburgo (onde havíamos passado um dia completamente diferente, falaremos disso na próxima crónica). Acho que logo à chegada sentimos que a Noruega ia ser um país muito distinto dos outros que já tínhamos visitado…

Estávamos tão cansados do dia anterior que passámos a manhã a dormir. Mas às 2 da tarde estávamos a arrancar para o centro da cidade. Fizemos questão que a nossa primeira paragem fosse no local onde ocorreu a explosão do dia 22 de Julho. Ao chegar lá, encontrámos apenas barreiras que nos impossibilitavam de ver o edifício mais atingido. Outra coisa que também reparámos foi que as duas entradas existentes para o recinto, agora em reconstrução, estavam protegidas por dois seguranças. Em conversa com eles percebemos que, apesar de não haver medo de outros ataques, havia uma espécie de receio generalizado, mas no entanto as pessoas já tinham quase ultrapassado a situação. Um outro habitante da cidade viria a confirmar o que o primeiro disse, acrescentando que apesar disso, o (não sabemos o que lhe haveremos de chamar) ainda continuava a ser notícia. Ainda sobre este assunto, gostaríamos de dizer que tentámos visitar a ilha de Utoya, onde morreram os cerca de 90 jovens da nossa idade, mas por ser longe, demonstrou-se impossível. De qualquer forma, não foi preciso ir lá para entender o terror que várias centenas de pessoas viveram naquele dia: umas por morrerem injustificadamente, outras por verem morrer e outras só por saberem o que se passou. No resto do dia, fomos apenas passear e sentir a cidade – “viva”, pareceu-nos.

No dia seguinte começámos por passar pela Ópera de Oslo, seguindo a Nobel House, Teatro Nacional, Galeria Nacional (onde vimos o quadro que já nos deu muitas dores de cabeça no teste de português do 10º ano – A dança da vida, de Edvard Munch) e, antes de ir almoçar, o Palácio Real. Depois do almoço, uns espanhóis tinham-nos aconselhado a ir ao Holmenkollen, para experimentar o seu simulador de salto do ski. Assim foi. Malditos 6€ que gastámos cada um, aquela “brincadeira” foi tão sensacional como andar numa escada rolante. O que salvou a visita foi mesmo a ida ao museu do ski e à “torre de lançamento” dos atletas. É impressionante a altura daquilo. Nesse dia fomos também ao Vigeland Park, o que ambos consideramos ter sido o sítio mais interessante da cidade.

O dia seguinte foi muito mais intelectual, digamos. Levantámo-nos bem cedo, fizemos a habitual compra do pin e fomos à City Hall. Estava muito movimentada naquele dia e assim que metemos um pé na escada fomos logo interpelados por uma segurança que nos impediu de seguir em frente, uma vez que na “Câmara Municipal” estava a decorrer um evento político (já estávamos a ver o nosso “estudo” comprometido). Tanto insistimos que ela logo nos indicou outro local a experimentar – o Parlamento norueguês -, e lá fomos nós… Já no parlamento, tivemos de falar com um novo segurança que, por sua vez, contactou uma série de políticos que, eventualmente, nos pudessem receber. Mas acabou por desistir. “Ou vai, ou racha!” – ficámos meia hora nas escadas da entrada a abordar cada pessoa que por lá passasse, no sentido de perceber se eram políticos e se nos poderiam responder a umas “few questions”. Até que finalmente surgiu uma política. Dessa conversa podemos salientar algumas informações: quanto à sociedade pode-se dizer que é muito pacífica (veja-se que apenas 40% dos presidiários são noruegueses), e que não são visíveis grandes fossos entre classes sociais. Segundo Hilde Hamarshand, a taxa de desemprego é muito baixa, o que muito contribui para os dois factos que relatámos anteriormente. No que diz respeito à economia, os principais produtos de exportação são o petróleo, o gás natural e o peixe. Note-se que os impostos que aqui são cobrados são mais altos do que os de Portugal (quase o dobro). A nível político, e contrariamente ao que costuma acontecer quando “tá tudo bem”, as pessoas interessam-se muito e fazem sempre questão de se expressar.

Deixámos as informações sobre educação propositadamente para o final uma vez que resolvemos ir ouvir uma outra voz – a dos estudantes – que foi em parte divergente em relação à da Dr. Hilde (pelo menos, em termos de opinião). Foram coincidentes ao dizer que o sistema educativo é praticamente gratuito na sua totalidade, apenas existem propinas no ensino superior (ES); que todos os alunos têm os mesmos direitos e oportunidades e que a educação é eficaz. A Dr. Hilde acrescentou ainda que o governo concede empréstimos aos alunos que frequentam o ES que são a posteriori pagos quando os jovens se iniciam na vida ativa. Segundo ela, tudo o resto “corria bem”… Pelo ponto de vista dos dois jovens com quem falámos, as coisas já não eram bem assim. Segundo eles, a educação lá tem o objetivo de equilibrar as capacidades, mas isto levado ao extremo. Assim “a ideia é”: investir muito nos fracos para que eles consigam subir e atingir um nível mediano o que, consequentemente, leva a um menor apoio “àqueles que já sabem tudo”, como diziam <<They put everyone in the same box>>. Outro problema que eles indicaram foi o facilitismo com que toda a gente tem tudo na Noruega, por este ser um país rico. Pela lógica deles, isto contribui seriamente para uma falta de ambição generalizada (repare-se que 1/3 dos alunos abandona o Secundário). No ES, existe um sistema muito diferente do nosso – ao que pudemos constatar eles só tem 5 horas de aulas por semana (onde os professores apenas debitam bibliografias e pequenas orientações), o resto é “cada um por si”, embora estudem muitas vezes em grupo (chegam a estudar 50h/semana) . Um mês antes da fase de exames não têm aulas. Uma última curiosidade: na Noruega, por norma, não existem cantinas, e todos os alunos levam a comida de casa.

No final deste longo dia cheio de conversas enriquecedoras, e depois de termos comprado dois bolinhos muito bons a umas crianças que participavam numa campanha contra a fome em África, apanhámos um comboio e partimos com destino a Stavanger. Eram 7.10h da manhã quando chegámos. O nosso objetivo já estava delineado – ir ver os Fiordes. Então na estação de camionagem pedimos <<um bilhete para Prei-kes-to-len>>, ao que imediatamente nos reponderam que não dava para comprar, pois nesta altura do ano não existiam visitas ao local. Parecia impossível que tenhamos feito meio milhar de km para voltar para trás! A senhora disse-nos que a única hipótese era ir de transportes até à aldeia mais próxima e depois fazer 20km a pé. Bem, sejamos realistas, com as mochilas, era impossível. Fomos ao posto de turismo que só abria às 9h. Esperámos, esperámos, tomámos o pequeno almoço e esperámos e depois lá chegou uma senhora que nos abriu a porta. Essa já dizia que só tínhamos de andar 9km, o que já estava melhor… Seguimos as instruções e apanhámos um ferry num caís onde deixámos as nossas mochilas. Literalmente, menos um “peso em cima das costas”… Entrámos para o barco e ao comprar o bilhete lembrámo-nos de pedir uma terceira opinião (não pudesse melhorar um pouquinho mais…). E melhorou mesmo, imenso! O revisor, muito simpático, indicou-nos um motorista que nos podia levar de borla ao local que pretendíamos chegar (já agora, sabiam que “grátis” é uma palavra comum a muitas línguas?), porque a sua função era ir buscar hóspedes ao hotel que se encontra na base do nosso destino – Preikestolen. Assim foi, nem pensámos duas vezes, 20 minutos depois já estávamos a iniciar a nossa subida. Percorremos 4 km em 2h num terreno que só podemos classificar como difícil, mas majestoso. Foi fantástico dar cada passo debaixo de chuva e granizo em direção ao cume, mas foi ainda mais emocionante chegar àquela rocha enorme. A sensação pode ser resumida em duas palavras: MUITO MEDO. Claro que por uma questão de segurança não nos conseguimos aproximar muito do precipício mas, deitados ou de gatas, lá fomos nós espreitando o fundo, parecia tudo tão pequenino! Mesmo um barco que lá apareceu podia ser comparado ao tamanho de uma unha (do dedo mindinho). Pensamos que as fotos falam por si.

Descemos com uns alemães a quem tirámos umas fotos, e acabámos por apanhar boleia com eles (só tivemos de pagar metade do estacionamento – um bom negócio, diga-se). Tudo parecia correr bem demais, até nos apercebermos que estávamos no ferry errado a ir para um sítio muito diferente do qual onde tínhamos deixado as mochilas. Isso custou-nos mais umas coroas, mas lá voltámos a Stavanger. Depois de um dia cheio de sorte e azar, o nosso plano era pernoitar na estação até às 6.20h da manhã e a essa hora apanhar o comboio mais barato para Oslo. O problema é que às 22h soubemos que a estação fechava à noite, então apanhámos o último comboio por 10 minutos, uma sorte, caso contrario dormiríamos na rua. Em Oslo apanhámos um autocarro para Estocolmo, donde vos escrevemos…

Inntil neste gang, kompis!

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9 respostas a Noruega, o país das maravilhas…

  1. O relato que nos fazem é tão detalhado que até parece que nós, leitores, aí estamos convosco. As fotografias também estão deveras sensacionais. Continuem estas excelentes crónicas.
    Um abraço,
    Ricardo Oliveira

  2. Cristina Saraiva diz:

    Mais uma crónica fantástica, gostei imenso, continuem assim sabe muito bem saber todas as aventuras que vocês passam, beijinhos aos dois e continuação de boa viagem.

  3. Carlos Torres diz:

    Mais uma bela crónica!!!!

  4. Adorei a vista dos Fiordes! Só lamento nestas fotos a falta de documentação do povo feminino sueco, assim até me desiludem pá ;p
    São os maiores, gostei muito da crónica e fico à espera das vossas próximas aventuras😉
    Um abraço e portem-se bem

  5. Luis Fonseca diz:

    Excelente crónica, valeu a pena deixar-te em paz. Sem essas “desorientações” isso nem tinha tanta piada. Abraço e boa continuação.

  6. Tiago Vieira diz:

    eu digo-vos, eu nao era capaz de estar como tiverem na beira do precipício. Mas claro que deve ser uma experiência única. Realmente como já tive oportunidade de ver nas fotos a Noruega é um país fantástico, deve é ser muito frio.

    Abraço😉

  7. MFA diz:

    Lobos aventureiros
    … Mais uma crónica recheada de aprendizagem, vida e movimento.
    Destaco a vossa caminhada em direcção aos Fiordes, pois claramente foi uma “aventura” vertiginosamente fantástica e majestosa, como referem.
    As fotografias falam por si… Olhar para elas, foi um dos melhores presentes que tive nos últimos tempos! (obrigada).
    Agora na Suécia… (como querem sugestões) …
    Em Estocolmo… a cidade construída pelo emaranhado das suas 14 ilhas… as opções de visita são inúmeras. Claro que se destaca a cidade velha (Gamla Stan), que é um ponto de paragem turístico. Mas também, por ser diferente, sugiro Vasastan, onde se encontra o melhor do design escandinavo (claro que eu não poderia deixar passar em branco o design!), em contraponto à massificação do IKEA. Vasastan é uma zona eclética, onde as lojas de design e minimalismo se misturam com o comércio tradicional.
    Nos arredores de Estocolmo há interessantes povoados, do qual se destaca o Vaxhlom Vaxholm, um povoado estilo típico dos povoados marinhos do país, com as suas típicas casas de madeira.
    Se a opção for pelo sul do país, vão em direcção à rota dos cristais, onde podem encontrar as principais fábricas de cristais, um dos atractivos de Suécia.
    Se forem para norte, podem fazer o roteiro da Lapónia Sueca, terra dos samis (laponé), que convida a uma aventura distinta – mais próxima dos fiords, mas com paisagem diferente.
    Uma experiência diferente será a de conhecer grandes multinacionais de origem sueca, como por exemplo a Volvo e Ericsson.
    São muitas as opções…e fico à espera da aventura por este país.
    Beijos

    • fllgapyear diz:

      Sem dúvida que a caminhada para alcançar os fiordes foi dura mas valeu a pena.
      Muito obrigado pelas sugestões, já estamos a pôr algumas em prática. Adiantamos, desde já, que estamos a adorar o país!

      Beijinhos

  8. odete azevedo diz:

    Ao ver as vossas fotos ,recuei no tempo(12anos), quando fui à NORUEGA. naõ tive essas aventuras ,mas tive uma experiência ,ver o nascer do sol à meia noite,de uma varanda sobre o ÀRTICO maravilhoso.mas ao ler a vossa crónica percebi que voçês conseguiram observar paisagens espetaculares que eu não vi.São uns exploradores e corajosos ,continuem a relatár_nos as vossas aventuras , beijos e parabéns

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