Três dias diferentes em Copenhaga

Foi uma visita rápida pela Dinamarca. Uma cidade e um país que nos surpreendeu por um lado e nos desiludiu por outro. Passamos a explicar…

Começámos a conhecer a cidade pelo nosso método preferido – perdendo-nos. Lá fomos dar ao centro da cidade: as ruas andavam cheias, com alguns artistas de rua, muitos suecos, muitos take-away chineses, muitas bicicletas, muito bronze, muitas obras de restauração, muitos frutos secos e amêndoas caramelizadas, muitos crepes, poucos polícias, poucos monumentos, muito movimento.  Achamos que em 2 horas e meia vimos todo o centro da cidade. Mas queríamos perceber e saber mais sobre a história de Copenhaga, então, à semelhança do que fizemos em Berlim, resolvemos fazer uma daquelas Walking tours. Foi bom pois ficámos a saber muita coisa de uma cidade que já ardeu por 3 vezes, onde nasceu a Carlsberg (cujo fundador doou vários monumentos à cidade) e onde surgiram os Vikings.

No mesmo dia, tentámos ir à Câmara Municipal, mas só quando lá chegamos e vimos que estava fechada é que nos lembramos que era Sábado. Bem, aproveitámos para ir ver a pequena sereia (comparável ao Manneken pis de Bruxelas, percebem a comparação? pois…) e uma catedral perto do palácio real. Mas não foi motivo para deixarmos de fazer uma pequena investigação sobre a vida das pessoas na Dinamarca. Cá vão algumas curiosidades: por exemplo, a partir dos 18 anos os alunos começam a receber para estudar, como se de um ordenado se tratasse; os trabalhadores descontam quase 50% do seu ordenado para o estado; no mínimo recebem 90 a 100 coroas por hora (não nos souberam especificar) e trabalham 37 horas por semana, o que corresponde mais ou menos a 1700€/mês (equivalente ao nosso ordenado mínimo); a saúde é totalmente universal e gratuita. Ainda relativamente ao custo de vida, visitar esta cidade não fica nada barato, basta olharmos para os preços: uma garrafa de 1,5L custa um euro, o hostel mais barato da cidade custa 19€ por pessoa, as refeições não se fazem por menos de 7,5€ (optando pelo mais barato) e uma simples viagem de metro fica a 3€.

Nesta cidade, outra coisa que achámos bastante curioso foi um verdadeiro jogo da caça às latas e garrafas de plástico que já se encontravam no lixo e não havia maneira de nós sabermos porquê, era algo que nos intrigava mesmo. Um dia, alguém nos explicou que os supermercados davam um “x” por cada garrafa/lata.

Uma coisa que experimentámos pela primeira vez, neste país, foram os dormitórios de 8 pessoas. Para nós, foi uma experiência, sem dúvida, a repetir por várias razões. A primeira é o espírito de partilha que existe entre “acampantes”; a segunda vem da multiculturalidade e da troca de saberes, culturas e vivências entre colegas de quarto; por fim, a troca de contactos que podem vir a ser importante ao longo da nossa viagem (por exemplo, conhecemos um indiano e um chinês que se disponibilizaram a ajudar-nos quando nós fossemos aos seus países). Sobre este chinês, gostava (eu, Gonçalo) de deixar uma pequena reflexão: foi o primeiro de 6 com quem falei sobre este tema que demonstraram preocupação política e desagrado com o governo. Da boca dele, ouvi boas notícias – ao que parece são cada vez mais os que discordam do regime autoritário, ditatorial e opressor existente na China (veja-se, por exemplo, que os chineses não têm acesso ao facebook nem ao youtube, ao invés disso, têm uns outros “parecidos” controlados pelo governo) – ele aponta para os 80% contra o poder (não sei até que ponto é que estava a ser realista). E pela primeira vez também, me conseguiram indicar a razão de “uma inconsciência politica” generalizada, a razão, pelos vistos, é simples – os chineses andam distraídos com o crescimento da economia ano após ano – <<Quando o crescimento económico abrandar as pessoas vão-se lembrar de se começarem a revoltar >>, disse ele. Acho que é clara a mensagem de esperança que encontrei naquele quarto, parece que a “água se começa a agitar”.

Pelas ruas da cidade encontrámos ainda uma manifestação/acampamento que não gostaríamos de deixar passar “em branco”. Fomos ter com eles e tentar perceber porque se revoltavam, o nome do protesto era <<Occupy 99>>. Falámos com uma rapariga de 16 anos, que foi de propósito a Copenhaga, sozinha e de comboio, para participar na manif. De improviso, tentou-nos explicar o sentido de tudo aquilo – tratava-se de mostrar às pessoas que nós, e ela dizia <<que não somos  políticos>> (os tais 99% da população mundial), temos juntos um poder incalculável e que não o devíamos dar “de mão beijada” ao 1% da população que, hoje em dia, toma as decisões da forma que lhe apetece, segundo ela – só “corruptos”. A jovem rapariga dizia aquilo com uma convicção invejável, parecia que ia mudar o mundo…

Por fim, para completar o nosso percurso por “mundos diferentes” fomos a um bairro a 3km da cidade chamado Christiania. Esse bairro, muito conhecido pelos dinamarqueses é uma antiga base militar abandonada, posteriormente ocupada por hippies. A comunidade que o habita atualmente não paga taxas ao país e vive numa autêntica oligarquia, isto é, toda a gente manda. Aquele sítio é muito especial por outra razão, apesar da polícia ter conhecimento disso e de ser ilegal, lá encontrámos dezenas de “barraquinhas” de venda de drogas leves. Ao que pareceu, quem vai lá compra e depois vai fumar para umas mesas de convívio. O que mais achámos impressionante foi a diversidade de classes sociais que frequentam o local, a confraternização e amizade entre todos, o facto de pelas mesas se falar de politica e de assuntos bastante interessantes e de inclusive se jogar gamão, tudo isto enquanto fumavam o seu “charro”. Foi lá que um jovem com os seus 25 anos nos disse uma coisa que nós achámos super curioso – na Dinamarca a esquerda e a direita na política funciona ao contrário, assim, os socialistas são de direita e os sociais democratas e os democratas cristãos são de esquerda – o que é muito estranho, não? E pronto, foi um noite bem passada com muita discussão de ideias e com um verdadeiro choque de realidades – sem dúvida que existem muitos preconceitos a eliminar. Já agora, mãe e pai, nós não fumámos!

Olhando para trás, visto que acabamos de chegar a Gotemburgo, na Suécia, vemos Copenhaga como uma capital que, para nós, “sabe a pouco”, mas de qualquer forma uma cidade que, como os nossos companheiros podem perceber, nos proporcionou uma série de experiências que nos levaram a repensar muita coisa…

Så længe, stipendiater!

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16 respostas a Três dias diferentes em Copenhaga

  1. Gostei bastante do teu texto.
    Sobre a sociedade queria te perguntar se ja conheces um excelente documentário, chamado “zeitgeist moving forward”, senão é só pesquisares no youtube é gratuito.

    Ja viste este video do Michael Moore a visitar a Noruega ?? http://www.youtube.com/watch?v=cgMm2MByjJU

    Grande Abraço.

  2. odete azevedo diz:

    queridos viajantes as vossas crónicas são o máximo , e sabem estou a reviver os tempos ,quando eu andei por essas paragems (passeava),claro que vós tendes outras experiências muito diferentes ,mais enriquecedoras ,,Eu só visitava o que a guia entendia
    continuem a partilhar.beijinos

  3. MFA diz:

    Lobos aventureiros…
    Como diz o vosso impulsionador – o Dr. Carlos, vamos ter livro, vamos!!
    Aliás, já estou a fazer o esboço com as vossas crónicas, alguns comentários e com selecção de algumas fotografias…
    É um facto, estão a presentear, a todos os que vos acompanham, de saber, de muita cor, muitos sons, muitas imagens, muitos cheiros. Só falta “discursos directos dos vários povos”, para ser uma global etnografia!
    Para mim, está a ser um enorme presente… e um orgulho ímpar.
    Como sugestão: nos países nórdicos se puderem façam uma rota pelas localidades e comunidades piscatórias mais a norte – vão garantidamente sentir outra realidade, uma forma de viver e trabalhar muito mais “manual e primária”: a terra e o mar como industria e como subsistência.
    Cá continuo a acompanhar os ecos dos vossos uivos!
    Beijos

    • fllgapyear diz:

      Depois não te esqueças que tens de pagar direitos de autor…
      É importante saber que a mensagem se vai passando e que a missão vai sendo cumprida.
      É sem dúvida uma grande ideia essa, fica muito longe da nossa rota mas nós vamos ponderar, pode ser que seja exequível.

      Obrigado e beijinhos!

  4. Carlos Torres diz:

    Continuo a adorar as vossas crónicas!!!! Vamos ter livro, vamos…
    Carlos Torres

  5. Apesar de não terem tido uma estadia “turística”, parece-me que terá sido em Copenhaga que vocês tiveram um verdadeiro vislumbre do mundo, isto é, formas de vida alternativas e culturas diferentes. Ainda que o viajante chinês vos parecesse um tanto quanto idealista (leia-se exagerado), é um ponto de vista que os media não nos mostram de todo, pois apenas nos falam incessantemente da economia (muitas vezes reduzindo-a ao PIB/GDP).
    Já agora, apenas uma pequena correcção: não era “oligarquia” que queriam escrever, mas sim “anarquia”.
    Continuação.
    Ricardo Oliveira

    • fllgapyear diz:

      Não professor, foi propositado: Anarquia basicamente cada um “faz o que quer”, Oligarquia todos mandam, como aquele caso… Eles têm reuniões, TODOS juntos (não sei com que frequência) e de lá é que saem todas as decisões.
      Sim, Copenhaga, definitivamente não é uma cidade linda de morrer, mas é, com certeza, uma cidade que nos ensinou muito.

      Obrigado pelo comentário.
      Abraço

  6. Isabel Azevedo diz:

    Sinto que ficou qualquer coisa por “ver e sentir” nessa cidade que muitos dizem ser bonita e agravável para visitar…
    No entanto ao ler esta crónica julgo que esta cidade não deixa de ser “curiosa” e diferente daquelas que até agora visitaram, tanto que esta vos proporcionou algumas vivências, que tal como vocês escrevem, vos levam a “repensar muita coisa”.
    Quanto ao custo de vida, até não me parece muito caro comparativamente ao ordenado que vocês referiram como sendo o equivalente ao nosso salário mínimo, em Lisboa uma refeição completa também não anda muito longe dos 7,5€ (a não ser em fast-food, claro…) e o nosso salário mínimo fica muito aquém…
    Mais uma vez (apesar de ser suspeita) gostei do que li, vocês continuam a descrever-nos muito bem aquilo que sentem quando visitam os locais por onde vão passando.
    Outra coisa, nós conhecemos os filhos que temos, sabemos bem como estes se comportam, se assim não fosse teriamos pensado duas vezes, e eu logo à primeira não tive dúvidas.
    Continuem assim, nós por cá continuamos “sedosos” pelas vossas descrições.
    Beijos muitos para os nossos (já mais crescidinhos) Meninos.

    • fllgapyear diz:

      Nós sabemos que têm muita confiança em nós, isso é muito importante.
      Quanto ao preço das coisas, deixa-nos esclarecer que a comida que comíamos por 7,5€ era mesmo só fast-food, caso contrário iríamos para refeições com o dobro do preço.
      Sim, aprendemos muito com a cidade.

      Beijinhos e obrigado.

  7. joao paulo dinis diz:

    Gostei da vossa crónica, como sempre.
    A\mentalidade nórdica tem muito pouco a ver com a nossa como puderam verificar in loco, mas isso deve ser o mais interessante da vossa viagem.
    Em relação aos chineses, o que disseram lembra-me a velha máxima romana – o que o povo quer é pão e circo.
    Boas viagens.

    • fllgapyear diz:

      Paulo, gostei da máxima romana. Não a conhecia mas encaixa perfeitamente em muitos casos… Madeira?
      Sem dúvida que a mentalidade nórdica é muito diferente da nossa, espero aprender muito com ela, sinceramente.

      Obrigado e abraço

  8. Cristina Maria Martins Fonseca Saraiva diz:

    Sim realmente podem não ter gostado muito, mas o que é certo é que viveram várias experiências, e esse é um dos vossos objectivos, conhecer outros jovens que como dizem até vos poderão ser úteis, etc, pode ter sabido de facto a pouco, mas não deixou de ser interessante.
    Como sempre, gostei muito de ler, continuem, divirtam-se, e eu cá estou sempre à espera para ler as vossas experiências, beijos aos meus dois viajantes preferidos.

    • fllgapyear diz:

      Obrigado Cristina, ainda bem que gostaste.
      Realmente, para nós Copenhaga não é “linda de morrer”, mas com ela tivemos novas experiências que, de certa forma, nos “abriram os olhos”.

      Beijinhos

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